quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Como se Transformou a Imagem de Jesus Cristo para os brasileiros?

Este texto sucinto nasceu da pergunta de uma reporter da Revista Época, numa entrevista dada recentemente. Achei que ele poderia ser útil aqui também.

A imagem de Jesus sempre esteve vinculada naturalmente ao âmbito das instituições religiosas ao longo dos séculos. A reprodução de alguns episódios da sua estória se dava por encomenda da Igreja ou de alguns nobres; mesmo assim, até mesmo a representação visual que ele tinha e as personagens que o acompanhavam deviam obedecer algumas regras para serem representadas. P. ex. a Virgem Maria, manto azul e véu branco; cada santo ou mártir sempre levaria junto de si o símbolo escolhido pela Igreja; Santa Cecília traz uma bandeja com os olhos; Jesus vem acompanhado do cordeiro; São Pedro com as chaves do céu, etc.
Conforme ao longo dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, se multiplicavam as técnicas de reprodução de imagens, fossem como gravuras em livros, gravuras vendidas separadamente, santinhos, mais contato o grande público possuía com estes ícones. Muitas vezes elaborados ao extremo simbolicamente falando. Mas, sempre se mantendo ainda no âmbito do mundo religioso. As convenções ainda eram religiosas.
Do final do século XIX e ao longo de todo o século XX isso irá se alterar sensivelmente. O motivo é o surgimento do cinema.De um lado as instituições religiosas buscavam cumprir o seu papel de evangelizadoras e catequizadoras. Do outro, com o surgimento da indústria cinematográfica, as produtoras desejavam atingir o público que freqüentava as igrejas. Pois o cinema era muito mal visto em seu início. Mulheres e crianças não costumavam freqüentar o ambiente onde eram projetados filmes. É de olho nesse público, classe média, que pode pagar entradas mais caras, ou simplesmente engrossar a massa de espectadores, que o cinema vai aos poucos se apropriando da imagem de Cristo.
Ao longo dos séculos XX, o cinema conseguiu retirar a imagem de Cristo do controle puro e simples das instituições religiosas e torná-lo uma personagem do cinema. Esvaziado do controle religioso, e muitas vezes esvaziado do significado transcendental. Ele se transformou num personagem rico que pode ser trabalhado das mais diferentes formas pelos cineastas.
As resistências sociais e religiosas à manipulação dessa imagem sempre existiram em menor ou maior grau. Mas, atualmente Jesus já é uma personagem de cinema.A gravidade deste processo no Brasil pode ser percebida se levarmos em consideração que até a década de 60 e começo dos anos 70 havia uma grande população iletrada no país. A maior parte não lia os textos evangélicos. Mesmo os que lêem têm dificuldade de entender adequadamente o que lêem. Além disso, com exceção do Evangelho de Lucas, nenhum dos textos canônicos conta uma narrativa ordenada dos acontecimentos da vida de Jesus, o que dificulta perceber de fato qual é a sua estória.Em outras palavras, gerações de brasileiros e pessoas em todo mundo aprenderam a estória da vida de Cristo através do cinema, ou mais tarde, através dos mesmos filmes transmitidos pela TV.
A ordem dos acontecimentos, a importância que uns possuem em detrimento de outros, as escolhas de atores, frases evangélicas, textos, e cenários, tudo passou a ser ditado pela conveniência da produção cinematográfica.
Neste processo de tornar “Jesus um personagem do cinema” outras personagens que circundavam por sua estória precisaram ser valorizados. Outros foram deixados de lado e esquecidos. Exemplos disso, são a estória de João Batista,que passou a funcionar como uma sub trama dentro da estória de Jesus – pois ela possui os elementos: intriga, erotismo, violência e morte. Dessa forma a personagem de João Batista e também a de Salomé, que possuem um significado bastante limitado nos textos canônicos tiveram o seu papel e importância bastante ampliado e expandido.
Da mesma maneira, para agradar um público apegado à tradição, o papel de Maria, que nos Evangelhos é muito pequeno, é ampliado e valorizado. Aí o típico Marianismo católico apareceu forte na maior parte dos filmes. Judas, o apóstolo que traiu Jesus, cujas motivações são pouco conhecidas, pois teria vendido Jesus por trinta moedas de prata, no entanto, ninguém sabe por que. Teve seu papel também ampliado, pois a ausência de uma motivação deu abertura para que se ficcionasse sobre suas razões.
Com certeza o papel que mais foi ampliado e levou a alterações importantes relativas à imagem de Jesus, foi o de Maria Madalena.Sobre Maria Madalena, só se sabe que ele expulsou delas sete demônios. Ela aparece depois nos episódios relativos à Paixão, como testemunha, e é a primeira pessoa para quem Jesus aparece após a Ressurreição. Isso é tudo o que se sabe sobre ela. Mas sua imagem já havia se fundido com de duas outras mulheres “anônimas” dos evangelhos, a mulher pega em flagrante adultério e a “mulher pecadora” que unge os pés de Cristo com perfume.Por essa razão Madalena passa ao longo da estória da Igreja como “uma pecadora arrependida” uma pecadora se trata de uma mulher que levava má vida, provavelmente uma prostituta. As adaptações dos diversos filmes relativamente a Maria Madalena, já fizeram com que ela deixasse a condição de prostituta, se transformasse em seguidora de Jesus, esposa, e mãe de seus filhos. Bem, a ampliação do papel dessa personagem, no cinema, serve para dar alguma pitada de romance na estória. No entanto, isso foi feito ao longo de um século.
As modificações mínimas de filme para filme, acabaram por afetar o conhecimento e o imaginário que o espectador possui sobre o assunto. Como disse antes a maior parte não lê os Evangelhos; se não liam antigamente, agora cada vez menos.E Jesus?
Jesus passa paulatinamente, de uma imagem que precisava ser retratada com o máximo de respeito possível. Pois afinal estava se retratando Deus, até dentrar na pele de um homem comum. Este Jesus despojado dos atributos divinos está sujeito a todos os problemas humanos, agravado pela sua confusa condição divina.
Essa personagem passa a suportar toda espécie de manipulação. Desde o casamento com Maria Madalena e com mais duas mulheres, e ter com ela uma penca de filhos, até ser esquartejado vivo por Mel Gibson.O cinema estabeleceu diversas imagens de Jesus Cristo. No Início do Cinema não narrativo e do cinema mudo, Jesus continuou bastante próximo da Cristologia Católica e protestante, ele ainda era retratado como “o cordeiro que retira os pecados do mundo”. Então ele nascia e crescia para o supremo sacrifício. Entregar sua vida para salva os homens.
Em períodos posteriores, tendo em vista alguma modificações históricas como a primeira ea segunda guerras e o surgimetno da televisão. Jesus tem sua imagem sutilemnte transformada, ele aparece mais humano e com uma imagem mais próxima de nossa sociedade, ele vira: Jesus, o médico; Jesus: o Professor. Em duas séries televisivas dos anos 50. Em King of Kings de Nicholas Ray, de 1961, ele se transforma numa imagem de um Jesus “Americano”, cores americanas, pele, olhos, atitudes americanas. E ele tem vinculado a sua pessoa o tema da Liberdade, tão caro aos americanos.
Em 1964, Jesus ganha uma feição mais política com O Evangelho Segundo Mateus, de Pasolini; em 1967, ele aparece como “o Pastor Universal” através de George Stevens, e a sua maior inovação é falar parte de uma epístola de Paulo; em A Maior Estória de Todos os Tempos.
Em 1973, Jesus aparecerá como um palhaço divertido em Godspell, uma produção que contava menos da sua vida do que tendia a fazer com que as pessoas se inspirassem nos gestos ali retratados; em Jesus Cristo Superstar, o mundo viu um “Jesus Adolescente” com todos os defeitos de um adolescente, cruel, mesquinho, preguiçoso, ranheta, egoísta, e irascível, mais ou menos um Anticristo. Mas, ele passou bem pela crítica por causa da qualidade das canções, a sua imagem questionava-se a si mesma, como ela fora elaborada anteriormente. Junto dele o papel de Judas cresceu bastante, ao longo do filme Judas parecia uma personagem mais próxima de ser O Messias, do que Jesus; e ao contrário de outros filmes, eles eram amigos bastante próximos. Para Judas Jesus havia acreditado na estória de que era Deus e havia sido amolecido por Madalena.
Em 1977 surgiu um dos melhores filmes, Jesus de Nazaré de Franco Zefirelli, feito para a TV, ele elaborou de forma bastante conscienciosa, tomando cuidado para não cair em erros passados a imagem de Jesus: o Judeu. Até hoje é considerada a melhor produção por todas as confissões religiosas.
A Última Tentação de Cristo, não obstante ser uma boa obra cinematográfica, no mostrou um Jesus Psicótico. Dependente de todos os que estavam à volta, sem opinião, covarde, indeciso, e quando tomou sua única decisão errou. O Papel de Judas chegou à sua maior elaboração: ele era mais íntegro e honesto, mais corajoso, e compreendia melhor a missão de Cristo do que ele mesmo. É com este Jesus, fraco, indeciso neurótico, que Maria Madalena, se casa; no filme ela se tornou prostituta por causa da rejeição de Jesus. Logo, só a aceitação dele pode fazer com que ela se redima.
O filme de Mel Gibson vai levar a um retorno à imagem tradicional, “Jesus o cordeiro de Deus”; no entanto, diversamente de vários diretores, Gibson, um católico ultra radical, conhece teologia e sabia bem o que estava fazendo ao estabelecer essa imagem.No Brasil, o Padre Marcelo estabeleceu, a imagem de Jesus um homem cordial, alegre, amigos dos amigos. Bem brasileiro.
Quais as conseqüências disso? Bem, falar de Deus e falar sobre Deus, significa fazer teologia. Aqui não se discute a qualidade desta teologia. No entanto, essa teologia, a forma de ser ver Deus altera sensivelmente o imaginário das pessoas. Não foi à toa que Jesus saiu da condição de ícone intocado e sagrado da nossa cultura e chegou a se tornar uma personagem ligada ao mundo dos meios de comunicação como mais um produto.O cinema lutou para tornar Jesus um personagem seu, procurou adaptá-lo da melhor forma para as suas necessidades e para o público que o recebia, no entanto, apesar de todas as boas intenções envolvidas em alguns casos, Jesus acabou se transformando num produto.
Hoje as pessoas não possuem mais uma imagem unívoca de quem seja Jesus, elas podem escolher numa infinidade de informações, produtos midiatizados, que Jesus ela prefere. Um profeta? Um político? Um médico? Um psicótico? Um gentil? Todas essas imagens convivem, e nem ao menos se disputam espaço. É importante compreender a elaboração dessas imagens no âmbito da cultura e das relações do homem com o sagrado, pois quando dois assuntos entram “em moda” na mídia e são vendidos aos montes para as pessoas do mundo inteiro, só se pode entender este fenômeno de Judas e Madalena, Judas com o Evangelho, e Madalena, com o código da Vinci, se sabendo como ele foi preparado ao longo das décadas pelo cinema e pela TV.
As pessoas se acostumaram com a idéia de que Jesus poderia ter tido uma esposa, se acostumaram com a idéia de que Judas não era tão ruim assim e que tinha motivos sérios e sólidos para trair Jesus, etc, etc, isso faz com que a imagem sagrada que tanto importava para o público seja bastante esvaziada do seu sentido e significação originais. Mesmo seguir Jesus, não significa hoje um caminho único.
Em décadas anteriores os filmes de Cristo eram bastante reprisados no cinema e na televisão. Os brasileiros receberam fortemente a influência do cinema internacional na imagem que possuem de Jesus Cristo. No entanto, o efeito que essa adaptação de imagem teve foi o de fragmentar a sua força e dramaticidade.
Uma outra forma de observar um dos seus possíveis efeitos é o fato de que o radicalismo cristão cresce, e cresce com afirmações de uma imagem única de Jesus, coesa, nada dispersiva, como é o caso das Igrejas Evangélicas e Carismáticas, Jesus é o curador. As frases usadas nos cultos são muito simples, repetitivas e pouco elaboradas. Por que toda elaboração dá margem à especulação e a possível fragmentação. Diante da multiplicidade atordoante do século XXI, aqueles que não se adaptam à fragmentação, à miséria, à fome, de toda sorte, agarram-se desesperadamente à imagem sólida de um Jesus, que além de Curador de todos os males é um provedor.Saímos então da imagem de um Jesus, o cordeiro de Deus que veio ao Mundo para nos salvar, para a imagem de um Jesus que provém para nós o que precisamos para ficar no mundo. Ao longo de um século essa inversão foi bastante radical.

domingo, 4 de outubro de 2009

Acessos

Após um ano de "conta-giros" ou controle de acessos, tivemos a passagem de 2684 pessoas. Iniciado em 04 de Outubro de 2008 e verificado agora. Isso nos dá uma média de 7,5 acessos por dia. Sou muito grato a todos e espero que o blog possa continuar sendo útil. Claro, que se comparado aos blogs da Madonna, Pity, Bruna Surfistinha e outros elementos midiáticos da net, como videocacetadas, numericamente pode parecer pouco, mas não é. O blog, iniciado para servir a comunidade acadêmica e interessados, parece estar de alguma forma cumprindo sua missão e isso é o mais importante. Sete pessoas por dia, quase três mil ao ano, o assunto? Religião e Audiovisual, sim... os acessos estão ótimos!!! Obrigado a todos!!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A Dinâmica do Espetáculo - The dynamics of the spetacle.

18 a. Compós – Belo Horizonte
GT: Fotografia, Cinema e Vídeo

Realizou-se entre os dias 2 e 5 de junho de 2009 o 18 o. Encontro Anual Compós, na PUCC Minas, em Belo Horizonte/MG, no mais importante encontro de pesquisa da área de Comunicação tivemos a felicidade de sermos selecionados para apresentar o trabalho: A dinâmica do Espetáculo: o movimento como expressão dramática em La Vie Et La Passion de Jesus Christ. O artigo, que é resultado da atual pesquisa em desenvolvimento, será publicado em E-book a ser lançado brevemente pelo mesmo GT onde foi apresentado.
18a. Compós - Belo Horizonte/MG
GT: Fotography, cinema and video.

Took place between days 2 and 5 June 2009 the XVIII Annual Meeting Compós in PUC / Minas, Belo Horizonte / MG. In the most important congress of the research area of communication, we had the happiness of being selected to present the work: The dynamics of the Spectacle: the movement and drama in La Vie et la Passion de Jesus Christ. The article, which is a result of our current research, will be published in E-book to be launched soon by the GT which has been presented.
The dynamics of the spetacle. The Movement as a form of drama in La Vie et la Passion de Jesus Christ (1902/1903 ).
Abstract: This article is an analysis of the film La Vie et la Passion de Jesus Christ, directed by Ferdinand Zecca and Lucien Nonguet, produced between the years 1902 and 1905, and known as the Passion of Pathé. Try to expand the discussion on narrativity in the period known as the Early Cinema, we chose to examine the role of the Movement in the tables that make the movie. We started the analisys by the movement of bodies, gestures of the actors and extras. we verifies the space of stage, until to movement of camera. And we tend to conclude that the directors made use of of movement on stage with purposes narratives and dramatics.

Keywords: Movement 1. Area 2. Passion of Christ 3. Jesus Film 4.

A DINÂMICA DO ESPETÁCULO
O Movimento como expressão dramática em La Vie et La Passion de Jesus Christ (1902/1903)

Resumo: Neste artigo faz-se uma análise do filme La Vie et la Passion de Jesus Christ, dirigido por Ferdinand Zecca e Lucien Nonguet, produzido entre os anos de 1902 e 1905, e conhecido por Paixão da Pathé. Busca-se ampliar a discussão sobre a narratividade no período conhecido por Primeiro Cinema, para tanto escolhemos analisar o papel do Movimento nos quadros que compõe o filme. Iniciamos através do movimento dos corpos, dos gestos dos atores e dos figurantes, passamos pelos deslocamentos espaciais, até chegarmos aos movimentos de câmera. E tendemos a concluir pela utilização dramática e com efeitos narrativos na utilização da movimentação em cena.

Palavras-Chave: Movimento 1. Espaço 2. Paixão de Cristo 3.

13o. Encontro Socine - em São Paulo


Novamente uma mesa imperdível na Socine. A reunião da Socine acontecerá este ano em São Paulo. Angeluccia, Miguel Pereira e Eu apresentamos a mesa o Sagrado no Cinema: Redenção. Continuaremos a desenvolver a problemática relativa ao sagrado e ao cinema, mas desta vez circunscrevemos para o tema da redenção, pois ele é apropriado e desenvolvido em diversos tipos de produção. Minha escolha de assunto segue abaixo:


“A Canção de Bernadete”: A redenção e a carne.

O tema da Redenção surge em diversas produções, desde os Filmes de Cristo onde o tema é trabalhado de forma mais direta até os enredos mais melodramáticos e mesmo cômicos. Pretendo abordar a forma como o o tema foi tratado no filme “A Canção de Bernadete” (King, 1943). Desenvolverei algumas noções sobre filme religioso, seguindo uma análise do filme sobre a vida de Bernadete Sobirou, discutindo a questão da redenção em dois sentidos distintos o sacrifício do corpo e o abandono do mundo.

Resumo expandido:
“A Canção de Bernadete”: A redenção e a carne
.
Tendo em vista observar a influência do Cristianismo sobre o Cinema, quer seja pelas escolhas dos temas tratados no filmes, quer seja pela influência política e econômica dos produtores de origem religiosa, escolhi verificar como o tema teologal da Redenção é absorvido e interpretado numa produção americana.
Este tema surge em diversas produções ao longo da história do Cinema, sendo facilmente observado nos Filmes de Cristo, como “Da Manjedoura à Cruz (Sidney Olcott, 1912), “The King of Kings” (DeMille, 1927), etc, onde o tema é trabalhado de forma mais direta; e pode ser percebido até mesmo nos enredos mais melodramáticos e mesmo cômicos, como “A Vida de Brian”, “Amor Além da Vida”, “A.I. Inteligência Artificial”, “E.T.”, entre outros. Pretendo abordar a forma como o tema Redenção foi tratado no filme “A Canção de Bernadete” (King, 1943).
Para tanto desenvolverei algumas noções sobre filme religioso assunto pouco explorado até então (existe um gênero? Quais suas características?) e em seguida farei uma análise da leitura do filme sobre a vida de Bernadete Sobirou, discutindo a questão da redenção em dois sentidos distintos o sacrifício do corpo e o abandono do mundo, aqui os dois temas serão absorvidos na conhecida metáfora: a carne. Através da análise buscaremos resgatar essa produção, não apenas pelo seu valor artístico e histórico, mas pelos novos sentidos que uma leitura a partir do ponto de vista religioso, pode trazer à luz.
A Canção de Bernadette é um filme do conhecido diretor Henry King, um dos grandes realizadores de Hollywood, com produção de um não menos notável David O. Selznick. A estória se passa no século XIX, e trata da vida de Bernadette Soubirous, a jovem que teve uma visão da Virgem Maria em Lourdes, na França, em 1858. Retrata um momento bastante delicado, onde a Igreja Católica estava reafirmando seus dogmas e elaborando um novo, o da Imaculada Concepção. É no terreno do embate entre religião e ciência que a personagem Bernadette surge, e se torna para nós um ponto privilegiado de onde poderemos observar a discussão e seus reflexos na sociedade.
O filme trouxe o Oscar de melhor atriz, para Jeniffer Jonnes, e também levou os de fotografia, Arte e Música, em 1943. Sendo que a trilha sonora havia sido iniciada pelo conhecido compositor Igor Strawinsky, e foi reelaborada e concluída por Alfred Newman.O filme teve grande impacto na época e chegou a ganhar quatro Globos de Ouro, em 1944.

Bibliografia:
FLESHER, Paul V. M. e TORRY, Robert. Film & Religion. An Introduction. Nashville: Abingdon Press, 2007.
MARSH, Clive. Theology Goes to the Movies. An introduction to critical Christian Thinking. London/New York: Routledge, 2007.
MAY, John R. (ed). New Image of Religious Film. Franklin/Wisconsin: Sheed & Ward, 1997.
MITCHELL, Jolyon e PLATE, S. Brent. The Religion and Film Reader.New York/London: Routledge, 2007.
WALSH, Frank. Sin and Censorship – The Catholic Church and the Motion Picture Industry. New Haven and London: Yale University Press, 1996.
WRIGHT, Melanie J. Religion and Film – An Introduction. London/New York: I. B. Tauris, 2008. reimpressão da ed. De 2007.

Work in progress - Novos Artigos em andamento

Mary Magdalene a Difficult Character - (in progress)
In this article we analyze the construction of the image of Mary Magdalene in the film. The known character of the Gospels, being directly connected to events relating to the Resurrection of Jesus Christ, has always been present in the film productions of Christ, in this article to see how her image is constructed in film and TV, and new meanings that she acquires in this process.
Religious films - (in progress) This article find the production religion as a whole. I deal here since the films that have a religious theme or subject, to movies produced under the auspices of religious institutions. I attempted to establish the characteristics of what roughly we could call the religious genre.

Biblical epic films - (in progress)
The genus Epic Bible is studied and recorded here in all its details and features. This text is a chapter of a book still being published and dealing with film genres. The book is organized by Gelson Santana and Fernando Mascarello.

Why do not laugh of Christ? - (In progress)
Analysis of comic video directed by Javier Prato and designed to run on the Internet, and shows that an actor characterized Jesus Christ taking his homosexuality. In this article I explore the idea of humor and because it is not the person of Jesus Christ, but to its image.

The Film and Manufacturing of the Sacred. - Planned
A very important issue in productions involving religion or religious intent is the behavior of those who are involved in the making of films. This article explores the various moments where directors and actors have behaved not only a religious but also linked to their performance the sacralization of their actions so they could "bless" the final product. The sacralization of manufacture is a very old established fact at least since the Middle Ages, when painters and sculptors were engaged to their work taken to respect religious, they often were fasting and praying as their work place.

The Passion of the Gaumont, aesthetic and narrative analysis. - Planned
One of the most important production of films of Christ, in 1906, deserves a detailed analysis. In this article I examine the naturalism of the production and check the differences between the production of Alice Guy and of Ferdinand Zecca, the rival producer, the Pathé.

The representation of Transcendent Films of Christ in the first film. The aesthetic influence of Tissot. - Planned
One issue that often seems incidental to the films of Christ, but who nevertheless became an important information because the collective imagination, is to as the "transcendent" is represented. Everything that belongs to the world not material here will be considered as an aspect of the "transcendent." It is important to note that at the beginning of the film and long had a very clear model of how the angels should be shown in cinemas, or even ghosts, and even God. In this sense, the irruption of the sacred is represented in a visual and tell us how this experience before the supernatural to happen.

The Representation of the Transcendent in Cecil B. DeMille. - In progress.
In this article do a detailed study of how Cecil B. DeMille will show their films in transcendental aspects of religious theme. The renowned director has a huge influence in this kind of filmic production, and eventually establish ways and means to represent the irruption of the sacred. See how this occurs and mapearei the influences of these choices and try to establish what is the contribution of the original director.

The Passion of Horitz - Registration Document. - Planned
This article analyzes the Passion of Horitz, one of the first films of Christ. This passion has been commonly thought, and looked like a movie drama, or a mix of fiction with documentary, this article supports the idea that neither. The Passion of Horitz this is a registry document, seek to dispel the idea of the Passion narrative as the guiding principle.

Maria Madalena a Difícil Personagem – (em andamento)
Análise sobre a construção da imagem de Maria Madalena no Cinema. Esta conhecida personagem dos Evangelhos, por estar ligada diretamente aos eventos relativos à Ressurreição de Jesus Cristo, esteve sempre presente nas produções de Filme de Cristo, neste artigo verificarei como a imagem dela é construída no cinema e na TV, e os significados novos que ela adquire neste processo.

Filmes Religiosos – (em andamento)
Neste artigo verifico a produção religiosa como um todo. Trato desde os filmes que possuem um tema ou assunto religioso, até filmes produzidos sob os auspícios das instituições religiosas. Faço uma tentativa de estabelecer as características daquilo que “grosso modo” poderíamos chamar de gênero religioso.

Filmes Épicos Bíblicos – (em andamento)
O gênero Épico Bíblico é estudado e verificado aqui em todas as suas nuances. Este texto se trata de um capítulo de livro ainda a ser publicado e que trata dos gêneros cinematográficos. O livro está sendo organizado por Gelson Santana e Fernando Mascarello.

Porque não se ri de Cristo? – (em andamento)
Análise do vídeo cômico realizado por Javier Prato para ser veiculado na internet, e que mostra um ator caracterizado de Jesus Cristo assumindo sua homossexualidade. Neste artigo exploro a idéia da comicidade e porque ela não se adequa à pessoa de Jesus Cristo, mas sim à sua imagem.

O Filme como Manufatura do Sagrado. - planejado
Uma questão bastante importante nas produções que envolvem religiosos ou intenções religiosos é o comportamento daqueles que estão envolvidos na realização dos filmes. Neste artigo exploro os diversos momentos onde diretores e atores se comportaram não apenas de forma religiosa como também vincularam à sua atuação a sacralização dos seus atos para que pudessem de alguma forma “santificar” o produto final. A sacralização da manufatura é um fato bastante antigo verificado ao menos desde a Idade Média, onde pintores e escultores dedicavam-se ao seu labor tomados de respeito religiosos, muitas vezes jejuando e orando enquanto realizam seus trabalho.

A Paixão da Gaumont, análise estética e narrativa. - planejado
Uma das mais importantes produções de Filmes de Cristo, realizada em 1906, merecia uma análise pormenorizada. Neste artigo farei uma apreciação do naturalismo da encenação, bem como verificarei as diferenças entre a produção de Alice Guy e a de Ferdinand Zecca, da produtora rival, a Pathé.

A representação do Transcendente nos Filmes de Cristo do primeiro Cinema. A influência estética de Tissot. - planejado
Uma questão que as vezes parece acessória aos filmes de Cristo, mas, que no entanto se torna um importante dado que informa o imaginário coletivo, é a de como o “transcendente” é representado. Tudo aquilo que pertence ao mundo não material aqui será considerado como sendo um aspecto do “transcendente”. É importante verificar que no início do cinema e durante muito tempo não havia um modelo muito claro de como deveriam ser mostrados os anjos no cinema, ou até mesmo fantasmas, e quiçá Deus. Neste sentido, a irrupção do sagrado é representada de forma visual e nos informa como essa experiência diante do sobrenatural deve acontecer.

A Representação do Transcendente em Cecil B. DeMille. – em andamento
Neste artigo faço um estudo minucioso da forma como Cecil B. DeMille irá mostrar os aspectos transcendentes em seus filmes de tema religioso. O conhecido diretor tem uma influência enorme neste tipo de produção fílmica, e acabou por estabelecer formas e maneiras de se representar a irrupção do sagrado. Verificarei como isso ocorre e mapearei as influências destas escolhas e tentarei estabelecer aquilo que é a contribuição original deste diretor.

A Paixão de Horitz – Registro Documental. - planejado
Neste artigo analiso a Paixão de Horitz, um dos primeiros filmes de Cristo. Essa Paixão tem sido comumente pensada e analisada como um filme de ficção, ou como um misto de ficção com documentário, neste artigo defenderei a idéia de que nem uma coisa nem outra. A Paixão de Horitz se tratava de um Registro documental, buscarei afastar a idéia da narrativa da Paixão como sendo o fio condutor.

Páscoa IHU 2009


Nos dias 18 e 19 de Março passado tive a oportunidade de estar em São Leopoldo e Porto Alegre, realizando três palestras à convite do Instituto Humanitas da Unisinos, fiquei feliz em poder participar de um evento que ocorre todos os anos A Páscoa IHU. A programação se constituiu de uma série de palestras, debates e exibição de filmes religiosos, alguns bastante raros. O evento foi um momento bastante enriquecedor, pois tive oportunidade de trocar idéias com profissionais da área de teologia, coisa que até então não havia feito de forma tão direta. Agradeço aos amigos do IHU pela oportunidade e pela carinhosa acolhida.

Segue abaixo a apresentação oficial do evento:

Apresentação

A Programação de Páscoa promovida anualmente pelo Instituto Humanitas Unisinos tem como proposta contribuir nos debates sobre temas relevantes da atualidade relacionados com a ética, a teologia, as religiões e a cultura. A programação para 2009 prevê um conjunto de atividades integradas que compreende: uma exposição de banners sobre religiões mundiais, acompanhada de uma série televisiva sobre as mesmas; um ciclo de filmes sobre "Jesus no cinema", precedido de palestras e debates sobre a estética, linguagem fílmica e o impacto da figura de Jesus na cultura contemporânea; palestras e debates sobre expressões simbólicas de narrativas religiosas; audições comentadas de música clássica; momentos celebrativos; retiro para universitários. Trata-se de uma abordagem transdisciplinar que visa envolver o público acadêmico e a comunidade local em reflexões e debates sobre valores humanos, culturais e religiosos impulsionadores para o compromisso com a construção de possibilidades de vida digna do ser humano.


Realização

Início: 02/03/2009
Término: 26/04/2009
Horário: Conforme Programa
Duração total: 60h
Investimento: Gratuito
Local: Sala 1G 119 – Instituto Humanitas Unisinos – IHU e Auditório Central
Av. Unisinos, 950 – São Leopoldo – RS
e Sala P.F. Gastal - Usina do Gasômetro/ POA


Objetivo

Debater e refletir sobre o significado histórico, filosófico, cultural e religioso da figura de Jesus e seus impactos na cultura contemporânea.
Objetivos específicos
- Analisar narrativas de Jesus e de Deus no cinema, na literatura e na música clássica.
- Promover o debate sobre valores humanos e cristãos a partir da arte.
- Oportunizar um estudo interdisciplinar sobre os símbolos da água e do fogo na liturgia pascal.
- Aprofundar o sentido da morte e ressurreição de Jesus Cristo para o contexto sociocultural
- Proporcionar momentos celebrativos através de audições comentadas de música clássica e de um retiro espiritual.
- Abrir perspectivas para o debate sobre possibilidades e impossibilidades da narrativa de Deus numa sociedade pós-metafísica.


18 de março
Palestra: Jesus no Primeiro Cinema. Estética e narrativa
Palestrante: Prof. Dr. Luiz Antônio Vadico - Universidade Anhembi Morumbi/SP
Local: Sala PF Gastal – Usina do Gasômetro/Porto Alegre
Horário: 20h às 22h

19 de março
IHU Idéias: A paixão de Cristo no Primeiro Cinema. Influências artísticas, estética e narrativa
Palestrante: Prof. Dr. Luiz Antônio Vadico - Universidade Anhembi Morumbi/SP
Local: Sala 1G119 - IHU
Horário: 17h30min às 19h


Palestra: Imaginando o Divino. Representações de Jesus no Cinema
Palestrante: Prof. Dr. Luiz Antônio Vadico - Universidade Anhembi Morumbi/SP
Local: Sala 1G119 - IHU
Horário: 19h45min às 22h

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Três Paixões! Iniciada a nova pesquisa

fotograma da Paixão da Gaumont, de Alice Guy

Ao encerrarmos a pesquisa anterior sobre Estética e Narratividade nos Primeiros Filmes de Cristo, sentimos a necessidade de aprofundar alguns aspectos fazendo um estudo ainda mais pormenorizado de alguns filmes. Então iniciamos a nova pesquisa, que conta não somente com os aspectos típicos de levantamento bibliográfico, discussão, metodologias, etc, como também passaremos à análise fílmica propriamente dita. Os filmes escolhidos foram a Paixão da Pathé (1902/03), a Paixão da Gaumont (1906), ou de Alice Guy, e Da Manjedoura à Cruz (1912). A pesquisa anterior e a presente visam a futura publicação de um volume que será composto de história, narratividade, estética e cristologia do Primeiro Cinema.

Três Paixões: Pathè, Gaumont e Kalem (1902-1912). Um estudo comparado entre as três produções mais importantes sobre a Vida de Cristo no Primeiro Cinema.


Descrição: O objetivo neste projeto é fazer um trabalho comparativo entre as três produções mais importantes sobre a Paixão de Cristo no início do século XX, a Paixão da Pathè (Zecca, 1902), a Paixão da Gaumont (Guy, 1906) e From the Manger to the Cross (Olcott, 1912). Esses filmes possuem várias características em comum, no entanto, algumas diferenças estéticas e narrativas justificam um estudo pormenorizado. Exemplos disso são as abordagens bastante originais de Zecca, quando insere pela primeira vez, material fictício em seu filme, de Alice Guy, quando estabelece metáforas visuais em sua Paixão, e de Olcott, ao propor uma forma diferente de retratar os aspectos visíveis do transcendente. O tema da paixão de Cristo, e a manutenção da percepção cristológica, de que Jesus é o Cordeiro de Deus são os fatores que dão certa homogeneidade a esses filmes. Eles se localizam temporalmente num momento importante do desenvolvimento da narrativa em filme. São largamente distribuídos e vendidos, sobretudo, são paradigmáticos de uma forma de produção e estética que será confrontada com a clara ruptura estabelecida em todos os níveis por The King of Kings, de Cecil B. DeMille, em 1927. A análise comparativa contribuirá com a produção acadêmica, pois até há pouco tempo esses filmes não estavam disponíveis. A Paixão da Pathè e From the Manger to the Cross, foram lançados no formato DVD em 2005, e a Paixão da Gaumont, que jamais havia sido lançada no mercado de vídeos ou DVDs, tornou-se acessível na França em 2007. .
Situação: Em andamento; Natureza: Pesquisa.

Publicado o artigo Cristologia Fílmica

O artigo anteriormente citado aqui no Blog chamou atenção de duas importantes revistas, de áreas distintas, uma de comunicação e outra de teologia, o que nos deixou muito felizes. Aqueles que porventura desejarem conhecer o artigo na íntegra poderão acessar os sites da Revista Alceu, mantida pela PUC-Rio http://publique.rdc.puc-rio.br/revistaalceu/media/alceu_n17_Vadico.pdf ou da revista Estudos de Religião (no. 34) mantida pela Universidade Metodista http://editora.metodista.br/revista_rel_34.htm . Aproveitem para conhecer melhor essas duas tradicionais revistas em suas respectivas áreas.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O Fundo Preto na Doc On-Line

A Doc On-Line publicou o artigo, O Fundo Preto. A revista Digital dedicada a Cinema documentário e as suas várias vertentes temáticas, é uma iniciativa Brasil Portugual, aproveitem para visitar. O corpo editorial tem feito um ótimo trabalho e tem reunido téoricos e trabalhos muito interessantes. A revista é recente, mas é daquelas que veio para ficar. Endereço da Revista: http://www.doc.ubi.pt/

Endereço do artigo: http://www.doc.ubi.pt/04/artigo_luiz_vadico.pdf

O Fundo Preto – Uma análise do Documentário Imagens do Inconsciente, de Leon HirszmanResumo: Imagens do Inconsciente, de Leon Hirszman, produzido entre 1983 e 1985, composto de três partes conectadas entre si, surgiu de um grande trabalho de cooperação entre Leon Hirszman e a psicanalista junguiana Nise da Silveira. A análise se centrará num recurso expositivo utilizado para mostrar as diversas pinturas exibidas ao longo do documentário, o fundo preto. Como se demonstrará neste artigo este recurso é uma contribuição de Leon Hirshman ao trabalho psicanalítico.Abstract: The Black Background – An analysis of the documentary Images of the Unconscious, by Leon HirszmanImages of the Unconscious, by Leon Hirszman, produced between 1983 and 1985, came from a large cooperative work between Leon Hirszman and the jungian psychoanalyst Nise da Silveira, and comprises of three related parts. This analysis will focus on the exhibition aid used to show the several paintings throughout the documentary, the black background. As this article will show, this instrument is a contribution from Leon Hirshman to the psychoanalytic work.Keywords: Hirszman – Jung – documentary – cinema – psychoanalysis – film theory

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Em Tempo: Resumo do trabalho a ser apresentado na Socine

Contemplatio Dei: o Filme como Iconostase.

Resumo:
Na comunicação pretendo relacionar o surgimento da via crucis, como uma forma de meditação, os primeiros filmes de Cristo com seus quadros separados, a duração dos longos planos de vários filmes, a atuação contida dos atores que fazem Jesus Cristo, a fixação pela relação natureza x construção humana, a diferença na velocidade de cortes quando são tratados os personagens não sagrados e os personagens sagrados. O Tempo longo, da duração das seqüências e da estaticidade de algumas imagens, não apenas como reflexo do sagrado, mas como uma iconostase, que enquanto produção humana permite a transcendência do espectador levando a Contemplatio.
Buscando compreender a formação da narrativa nos Primeiros Filmes de Cristo (produzidos entre 1897 e 1905) esbarrei na questão do seu imbricamento com a arte religiosa e com a forma de utilização desta. Até então pensava a narratividade linear da vida de Jesus através dos seus aspectos didáticos, ou seja, um aprendizado visual sobre a sua vida; no entanto, estudando a arte sacra a partir do ponto de vista dos seus artífices, verifiquei que a finalidade poderia ser também uma outra, a contemplação.
Ao relacionar, em trabalho anteriormente apresentado, a oração do Rosário e o exercício da Via Crucis preocupava-me o estabelecimento de uma linearidade narrativa; no entanto, havia passado despercebido o aspecto funcional da meditação e da contemplação, através das imagens mentais e das imagens pictóricas que estão ali embutidos. Neste sentido, as imagens realizadas no Primeiro Cinema, relativas a Jesus Cristo, parecem estar mais ligadas à tradição da contemplação cristã do que ao plano da linearidade narrativa, sem que uma prescinda da outra necessariamente.
Essas observações se estenderam ao cinema como um todo, quando este se remete ao sagrado. Para o exercício da contemplação é fundamental que se pare diante da imagem sagrada, visualize, medite e contemple, de diversas formas podemos dizer que isso demanda tempo. Um tempo longo. Uma vez que as imagens da arte sacra são pinturas, logo estáticas. Para a contemplação o fator temporal é fundamental, observei nos primeiros filmes de Cristo os seus quadros separados, seu desenvolvimento e seu tempo; a duração dos longos planos de vários filmes posteriores que continham a mesma temática; a atuação gestual contida dos atores que fazem o papel de Jesus Cristo; a reincidente fixação de cineastas pela relação natureza x construção humana, aspecto observado até mesmo nos documentários religiosos; a diferença de velocidade nos cortes quando são tratados os personagens "não sagrados" e os "sagrados". Essa relação entre tempo de exposição da imagem vinculada ao sagrado, possibilita que se pense o filme, não apenas como simples reflexo da abordagem do sagrado, mas como uma iconostase, que enquanto produção humana permite a transcendência do espectador levando a Contemplatio.
Dentre os vários filmes que utilizarei para reflexão estão A Maior História de Todos os Tempos (Stevens, 1967), O Evangelho Segundo Mateus (Pasolini, 1964) e Koyaanisqatsi (Reggio, 1982). George Stevens mais particularmente, pois a sua abordagem da vida de Jesus, considerada uma das mais longas, foi muito criticada por ser lenta demais, foi chamada de coleção de "cartões postais", ao longo de minha tese de doutoramento havia demonstrado que o filme se organizava por "meditações", diante do exposto acima acredito que uma nova acepção de Contemplação, aplicável às imagens em movimento, pode ser mais adequado para compreender essa produção de Stevens, bem como a de outros cineastas quando tocam nas questões relativas ao sagrado.


Bibliografia:
ALMEIDA, Milton José de. Cinema Arte da Memória. Campinas: Ed. Autores Associados, 1999.
CARCHIA, Gianni e D'ANGELO, Paolo (orgs). Dicionário de Estética. Lisboa: Edições 70, 2003.
COSANDEY, Roland; GAUDREAULT, André e GUNNING, Tom (orgs). An Invention of the Devil? Religion and the Early Cinema. Une Invention du Diable Cinéma de Premiers Temps et Religion. Sante Foy, Canada: Les Presses de l'Université Laval, 1992.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. S. Paulo, Ed. Martins Fontes, 1992.
ELIADE, Mircea. Tratado de História das Religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
GHARIB, Georges. Os Ícones de Cristo. São Paulo: Ed. Paulus, 2001.
IWERSEN, José Augusto. Cristo no Cinema - Visões de amor, paz, dor e.... espetáculo. São Paulo: Nova Sampa Diretriz Editora Ltda. (Roy Kinnard e Tim Davis: Divine Images: A History of Jesus on the Screen. New York: Citadel Press – Carol Publishing Group, 1992).
LELOUP, Jean-Yves. O Ícone. Uma Escola do Olhar. São Paulo: Ed. Unesp, 2006.
VADICO, Luiz Antonio. A Imagem do Ícone – Cristologia Através do Cinema. Um Estudo Sobre a Adaptação Cinematográfica da Vida de Jesus Cristo. Campinas, SP: [s.n.], 2005. Unicamp/tese.

O Sagrado e o Cinema - Mesa imperdível da Socine

Em outubro participarei da mesa O Sagrado e o Cinema, convidado pelo caro Miguel Serpa Pereira. A edição deste ano da Socine será em Brasília. Os que estiveram lá, compareçam. Sabem como é, ótima companhia, ótimo assunto... que mais se pode pedir?!

Visitem o site do Encontro
http://www.socine.org.br/

O Sagrado e o Cinema

Miguel Serpa Pereira
Luiz Vadico
Ney Costa Santos Filho

Descrição:

O cinema, desde seus primórdios, vem abordando o sagrado como tema constante de seus enredos e histórias. Hoje, esse espaço de representação cinematográfica se apresenta sob diferentes dispositivos teóricos e expressivos das realidades do mundo contemporâneo. As reflexões que norteiam as discussões desta proposta tomam por base as cinematografias de Roberto Rossellini, Lars von Trier, Robert Bresson, Píer Paolo Pasolini, George Stevens e Godfrey Reggio para analisar as relações entre o cinema e o sagrado.
De Rossellini destaca-se a trilogia do milagre. De Bresson e von Trier se analisa o espaço como lugar do sagrado na vida cotidiana. E de Pasolini, Stevens e Reggio se discute o tempo como a Contemplatio Dei.

http://www.socine.org.br/

No prelo: Cristologia fílmica: subsídios teórico-metodológicos para a análise da produção de imagens cristológicas geradas no cinema e na TV

A tradicional Revista Estudos de Religião, da Universidade Metodista de São Paulo, aceitou o artigo abaixo para publicação. Sairá em breve, no número 34.

Aproveitem para conhecer a revista, se ainda não conhecem:

Revista Estudos de Religião
http://editora.metodista.br/revistas_religiao.htm

Cristologia fílmica: subsídios teórico-metodológicos para a análise da produção de imagens cristológicas geradas no cinema e na TV

Resumo
Neste artigo se pretende dar subsídios metodológicos e teóricos para o estudo da cristologia realizada através dos meios cinematográficos e televisivos quando abordam a estória da vida de Jesus Cristo. Diante desse objeto percebemos a carência de trabalhos na área que dessem instrumentos adequados para a análise cristológica nos filmes. Esta é a razão de nossa contribuição. A especificidade do assunto exige abordagens e metodologias próprias que permitam a sua compreensão; e sua importância reside no fato de que, no contexto sociocultural do último século, a maioria da sociedade aprendeu a estória da vida de Cristo através dos meios audiovisuais. Os espectadores convivem, portanto, com imagens cristológicas geradas por esses meios, que, muitas vezes, são bastante diversas das interpretações teológicas mais tradicionais.

Palavras-chave: Metodologia; .Cristologia; Cinema; Televisão; Filme.

Filmic christology: theoretical-methodological subsidies to analyze
christological image production in movies and on TV
Abstract

This paper comprises theoretical and methodological subsidies for the studies of Christology carried out through cinematographic and television means when the story of Jesus Christ’s life is broached. Facing this object, we realized the need for papers in this area, which can give proper support for the analysis of Christology in movies. This is the reasonof our contribution. The specificity of the subject demands proper approaches and methodologies that allow for its full comprehension; the importance consists in the fact that, in the socio-cultural context of the last century, most of society learned the story of Jesus Christ through audiovisual means. These spectators lived with christological images generated by those means, and in the majority of instances those images are not the most righteous and traditional theological interpretations.

Keywords: Methodology; Christology; Cinema; Television; Movie.


Cristología cinematográfica:subsidios teórico-metodológicos
para el análisis de la producción de imágenes cristológicas
en el cine y en la TV

Resumen
Este artículo procura ofrecer subsidios metodológicos y teóricos para el estudio de la cristología articulada a través de los medios cinematográficos y televisivos, sobre todo al abordar temáticas correspondientes a la historia de la vida de Jesucristo. Se percibe, en esta área, la ausencia de trabajos que ofrezcan instrumentos adecuados para el análisis cristológico en las películas. Esa es la razón de nuestra contribución. La especificidad del asunto exige abordajes y metodologías propias que permitan su comprensión. Su importancia reside en el hecho de que, en el contexto socio-cultural del último siglo, la mayoría de la sociedad aprendió la historia de la vida de Cristo a través de los medios audiovisuales. Por ello, tales espectadores conviven con imágenes cristológicas generadas por los referidos medios, las que, muchas veces, difieren de las interpretaciones teológicas más tradicionales.

Palabras claves: Metodología; Cristología;.Cine; Televisión; Películas.

Anjos Vazios na Revista Rumores

O artigo Anjos Vazios: Paixão de Cristo da Pathé - A Ornamentação como característica Estética dos Primeiros Filmes de Cristo, foi publicado pela Revista Rumores da ECA/USP, no finalzinho de junho. Os que desejarem ler visitem a página. Aproveitem para conhecer a revista. O lay-out está ótimo e a interface é agradável. Essa veio pra ficar!
http://www.rumores.usp.br/vadico.pdf

terça-feira, 18 de março de 2008

Resumo de Artigos desenvolvidos em 2008 e Submetidos à Publicação

Cristologia Fílmica
Subsídios teórico-metodológicos para a análise da produção de imagens Cristológicas geradas no cinema e na TV.


LUIZ VADICO

Resumo:
Neste artigo se pretende dar subsídios metodológicos e teóricos para o estudo da Cristologia realizada através dos meios cinematográficos e televisivos quando abordam a estória da vida de Jesus Cristo. Diante desse objeto percebemos a carência de trabalhos na área que dessem instrumentos adequados para a análise Cristológica nos filmes. A especificidade do assunto exige abordagens e metodologias próprias que permitam a sua compreensão; e sua importância reside no fato de que, no contexto sócio-cultural do último século, a maioria da sociedade aprendeu a estória da vida de Cristo através dos meios audiovisuais, e esses espectadores convivem, portanto, com imagens Cristológicas geradas por esses meios, que, muitas vezes, são bastante diversas das interpretações teológicas mais tradicionais.

Palavras-chave: 1.Metodologia 2.Cristologia 3.Cinema 4.Televisão 5.Filme.

Abstract:
Filmic Christology
Theoretical-Methodological Subsidies to analyze Christological image production in movies and on television

This paper comprises theoretical and methodological subsidies for the studies of Christology carried out through cinematographic and television means when the story of Jesus Christ’s life is broached. Facing this object, we realized the need of papers in this area, which could give proper asset for the analysis of Christology in movies. The specificity of this matter demands peculiar approaches and methodologies that would allow us to its full comprehension; the importance consists in the fact that, in the socio-cultural context of the last century, most of the society had learnt the story of Jesus Christ through audiovisual means. These spectators had lived with Christological images generated by those means whatsoever, and most of the times, those images are not exactly the most righteous and traditional theological interpretations.

Keywords: 1. Methodology; 2. Christology; 3. Cinema; 4. Television; 5. Movie.


Anjos Vazios: Paixão de Cristo da Pathé
A Ornamentação como característica Estética dos Primeiros Filmes de Cristo

Luiz Vadico


Resumo: Neste artigo faz-se uma análise do filme La Vie et la Passion de Jesus Christ, dirigido por Ferdinand, produzido entre os anos de 1902 e 1905, e conhecido por Paixão da Pathé, utilizando como elemento de comparação alguns fotogramas da Paixão da Gaumont, dirigida por Alice Guy em 1903. O trabalho comparativo visa demonstrar como algumas cenas de ambos os filmes são realizadas tendo em vista a finalidade de serem imagens puramente ornamentais, e que ao invés de significarem a representação de hierofanias, como poderia parecer num primeiro momento, são esvaziadas de qualquer significado religioso e descoladas da narrativa. Aparecendo, assim, como um elemento puramente estético.

Palavras-Chave: Ornamentação 1. Estética 2. Paixão de Cristo3. Cinema4.Hierofania 5.

Abstract: Hollow Angels: Pathé's Passion Play
Ornamentation as an Aesthetic characteristic in the first Passion of Christ's movies.

This paper makes an analysis of the movie La Vie et la Passion de Jesus Christ, directed by Ferdinand and produced between 1902 and 1905. This movie is also known as Pathé's Passion Play and this analysis also includes some photograms of Passion by Gaumont (directed by Alice Guy in 1903) used as an element of comparison. The comparative work aims to prove that certain scenes from both movies were shot purely for ornamental reasons, instead of meaning a representation of hierofanies, as it could have been imagined at first. These images are completely hollowed from any religious meaning and detached from any narrative, thus resembling a purely aesthetic element.


Palavras-Chave:Ornamentation 1. Aesthetic 2. Passion of Christ 3. Cinema4 Hierofany 5.

Resumo de Artigos Desenvolvidos no Segundo Semestre de 2007 e Submetidos à Publicação

O Fundo Preto – Uma análise do Documentário Imagens do Inconsciente, de Leon Hirszman
Resumo: Imagens do Inconsciente, de Leon Hirszman, produzido entre 1983 e 1985, composto de três partes conectadas entre si, surgiu de um grande trabalho de cooperação entre Leon Hirszman e a psicanalista junguiana Nise da Silveira. A análise se centrará num recurso expositivo utilizado para mostrar as diversas pinturas exibidas ao longo do documentário, o fundo preto. Como se demonstrará neste artigo este recurso é uma contribuição de Leon Hirshman ao trabalho psicanalítico.

Abstract: The Black Background – An analysis of the documentary Images of the Unconscious, by Leon Hirszman
Images of the Unconscious, by Leon Hirszman, produced between 1983 and 1985, came from a large cooperative work between Leon Hirszman and the jungian psychoanalyst Nise da Silveira, and comprises of three related parts. This analysis will focus on the exhibition aid used to show the several paintings throughout the documentary, the black background. As this article will show, this instrument is a contribution from Leon Hirshman to the psychoanalytic work.
Keywords: Hirszman – Jung – documentary – cinema – psychoanalysis – film theory


Artigo: O Sofá e a Televisão – A evolução do aparato de conforto associado ao aparelho de base Televisivo.


Resumo:
Neste artigo exploramos o desenvolvimento dos móveis da sala de estar e a sua influência no ato de assistir TV. Partindo da conformação da sala de estar dos anos 30, onde o rádio é acrescentado ao esquema estrutural da sala destinada a receber visitas e à palração até ao estabelecimento de um formato que atenda às necessidades relativas ao visionamento da TV, pensando como uma se desenvolve em franca conexão com a outra. A argumentação seguirá no sentido de demonstrar que o aparato televisivo, percebido em seu estado óptimo de funcionamento, só é possível da forma como conhecemos tendo em vista a evolução do sofá como um móvel destinado a possibilitar um conforto corporal cada vez maior.


UM REPERTÓRIO DE IMAGENS PARA OS PRIMEIROS FILMES DE CRISTO

Luiz Vadico


Resumo: Uma das questões clássicas na discussão a respeito dos Filmes de Cristo é a de que estes filmes têm seus roteiros baseados nos textos dos Evangelhos - Canônicos e Apócrifos - em romances e nas pinturas e esculturas da arte clássica. E, que uma narrativa da história de Jesus é quase sempre composta na harmonização destes diversos textos. Neste artigo proponho a existência de um repertório de imagens, oriundas da liturgia Católica, da Oração do Rosário e da Devoção da Via Crucis, e que este repertório de imagens constituiu em si mesmo uma ordem para o estabelecimento de uma narrativa da vida de Jesus; e que ela se estabeleceu mais por motivos religiosos do que por questões narrativas, como vem sendo tratada até então.
Palavras-chave: Cinema – Narrativa – Religião.


Abstract: One of the classical issues on the discussion about Jesus’Film is the one that these movies have its sceenplays based on the Gospels – Canonics and Apocriphals – on novels and on paintings and sculptures from the Classical Art. Hence, another issue is the one about the narrative of Jesus’story is almost always composed on the harmonization of those different tests. In this article, I propose the existence of a repertoire of images derived from the Catholic liturgy, from the prayers of the Rosary and from the devotion of the Christ on his Via Crucis; and that this repertoire of images build up in itself an order to the establishment of a narrative on Jesus’life; and also that it has established more by religious motives than by narrative matters, as it has been treated likely since then.
Key words: Cinema – Narrative – Religion.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Como mudou a Imagem de Jesus para os Brasileiros?

Este texto sucinto nasceu da pergunta de uma reporter da Revista Época, numa entrevista dada recentemente. Achei que ele poderia ser útil aqui também.

A imagem de Jesus sempre esteve vinculada naturalmente ao âmbito das instituições religiosas ao longo dos séculos. A reprodução de alguns episódios da sua estória se dava por encomenda da Igreja ou de alguns nobres; mesmo assim, até mesmo a representação visual que ele tinha e as personagens que o acompanhavam deviam obedecer algumas regras para serem representadas. P. ex. a Virgem Maria, manto azul e véu branco; cada santo ou mártir sempre levaria junto de si o símbolo escolhido pela Igreja; Santa Cecília traz uma bandeja com os olhos; Jesus vem acompanhado do cordeiro; São Pedro com as chaves do céu, etc.
Conforme ao longo dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, se multiplicavam as técnicas de reprodução de imagens, fossem como gravuras em livros, gravuras vendidas separadamente, santinhos, mais contato o grande público possuía com estes ícones. Muitas vezes elaborados ao extremo simbolicamente falando. Mas, sempre se mantendo ainda no âmbito do mundo religioso. As convenções ainda eram religiosas. Do final do século XIX e ao longo de todo o século XX isso irá se alterar sensivelmente. O motivo é o surgimento do cinema.
De um lado as instituições religiosas buscavam cumprir o seu papel de evangelizadoras e catequizadoras. Do outro, com o surgimento da indústria cinematográfica, as produtoras desejavam atingir o público que freqüentava as igrejas. Pois o cinema era muito mal visto em seu início. Mulheres e crianças não costumavam freqüentar o ambiente onde eram projetados filmes. É de olho nesse público, classe média, que pode pagar entradas mais caras, ou simplesmente engrossar a massa de espectadores, que o cinema vai aos poucos se apropriando da imagem de Cristo.
Ao longo dos séculos XX, o cinema conseguiu retirar a imagem de Cristo do controle puro e simples das instituições religiosas e torná-lo uma personagem do cinema. Esvaziado do controle religioso, e muitas vezes esvaziado do significado transcendental. Ele se transformou num personagem rico que pode ser trabalhado das mais diferentes formas pelos cineastas. As resistências sociais e religiosas à manipulação dessa imagem sempre existiram em menor ou maior grau. Mas, atualmente Jesus já é uma personagem de cinema.
A gravidade deste processo no Brasil pode ser percebida se levarmos em consideração que até a década de 60 e começo dos anos 70 havia uma grande população iletrada no país. A maior parte não lia os textos evangélicos. Mesmo os que lêem têm dificuldade de entender adequadamente o que lêem. Além disso, com exceção do Evangelho de Lucas, nenhum dos textos canônicos conta uma narrativa ordenada dos acontecimentos da vida de Jesus, o que dificulta perceber de fato qual é a sua estória.
Em outras palavras, gerações de brasileiros e pessoas em todo mundo aprenderam a estória da vida de Cristo através do cinema, ou mais tarde, através dos mesmos filmes transmitidos pela TV. A ordem dos acontecimentos, a importância que uns possuem em detrimento de outros, as escolhas de atores, frases evangélicas, textos, e cenários, tudo passou a ser ditado pela conveniência da produção cinematográfica.
Neste processo de tornar “Jesus um personagem do cinema” outras personagens que circundavam por sua estória precisaram ser valorizados. Outros foram deixados de lado e esquecidos. Exemplos disso, são a estória de João Batista,que passou a funcionar como uma sub trama dentro da estória de Jesus – pois ela possui os elementos: intriga, erotismo, violência e morte. Dessa forma a personagem de João Batista e também a de Salomé, que possuem um significado bastante limitado nos textos canônicos tiveram o seu papel e importância bastante ampliado e expandido. Da mesma maneira, para agradar um público apegado à tradição, o papel de Maria, que nos Evangelhos é muito pequeno, é ampliado e valorizado. Aí o típico Marianismo católico apareceu forte na maior parte dos filmes. Judas, o apóstolo que traiu Jesus, cujas motivações são pouco conhecidas, pois teria vendido Jesus por trinta moedas de prata, no entanto, ninguém sabe por que. Teve seu papel também ampliado, pois a ausência de uma motivação deu abertura para que se ficcionasse sobre suas razões. Com certeza o papel que mais foi ampliado e levou a alterações importantes relativas à imagem de Jesus, foi o de Maria Madalena.
Sobre Maria Madalena, só se sabe que ele expulsou delas sete demônios. Ela aparece depois nos episódios relativos à Paixão, como testemunha, e é a primeira pessoa para quem Jesus aparece após a Ressurreição. Isso é tudo o que se sabe sobre ela. Mas sua imagem já havia se fundido com de duas outras mulheres “anônimas” dos evangelhos, a mulher pega em flagrante adultério e a “mulher pecadora” que unge os pés de Cristo com perfume.
Por essa razão Madalena passa ao longo da estória da Igreja como “uma pecadora arrependida” uma pecadora se trata de uma mulher que levava má vida, provavelmente uma prostituta. As adaptações dos diversos filmes relativamente a Maria Madalena, já fizeram com que ela deixasse a condição de prostituta, se transformasse em seguidora de Jesus, esposa, e mãe de seus filhos. Bem, a ampliação do papel dessa personagem, no cinema, serve para dar alguma pitada de romance na estória. No entanto, isso foi feito ao longo de um século. As modificações mínimas de filme para filme, acabaram por afetar o conhecimento e o imaginário que o espectador possui sobre o assunto. Como disse antes a maior parte não lê os Evangelhos; se não liam antigamente, agora cada vez menos.
E Jesus? Jesus passa paulatinamente, de uma imagem que precisava ser retratada com o máximo de respeito possível. Pois afinal estava se retratando Deus, até dentrar na pele de um homem comum. Este Jesus despojado dos atributos divinos está sujeito a todos os problemas humanos, agravado pela sua confusa condição divina. Essa personagem passa a suportar toda espécie de manipulação. Desde o casamento com Maria Madalena e com mais duas mulheres, e ter com ela uma penca de filhos, até ser esquartejado vivo por Mel Gibson.
O cinema estabeleceu diversas imagens de Jesus Cristo. No Início do Cinema não narrativo e do cinema mudo, Jesus continuou bastante próximo da Cristologia Católica e protestante, ele ainda era retratado como “o cordeiro que retira os pecados do mundo”. Então ele nascia e crescia para o supremo sacrifício. Entregar sua vida para salva os homens. Em períodos posteriores, tendo em vista alguma modificações históricas como a primeira ea segunda guerras e o surgimetno da televisão. Jesus tem sua imagem sutilemnte transformada, ele aparece mais humano e com uma imagem mais próxima de nossa sociedade, ele vira: Jesus, o médico; Jesus: o Professor. Em duas séries televisivas dos anos 50. Em King of Kings de Nicholas Ray, de 1961, ele se transforma numa imagem de um Jesus “Americano”, cores americanas, pele, olhos, atitudes americanas. E ele tem vinculado a sua pessoa o tema da Liberdade, tão caro aos americanos. Em 1964, Jesus ganha uma feição mais política com O Evangelho Segundo Mateus, de Pasolini; em 1967, ele aparece como “o Pastor Universal” através de George Stevens, e a sua maior inovação é falar parte de uma epístola de Paulo; em A Maior Estória de Todos os Tempos.
Em 1973, Jesus aparecerá como um palhaço divertido em Godspell, uma produção que contava menos da sua vida do que tendia a fazer com que as pessoas se inspirassem nos gestos ali retratados; em Jesus Cristo Superstar, o mundo viu um “Jesus Adolescente” com todos os defeitos de um adolescente, cruel, mesquinho, preguiçoso, ranheta, egoísta, e irascível, mais ou menos um Anticristo. Mas, ele passou bem pela crítica por causa da qualidade das canções, a sua imagem questionava-se a si mesma, como ela fora elaborada anteriormente. Junto dele o papel de Judas cresceu bastante, ao longo do filme Judas parecia uma personagem mais próxima de ser O Messias, do que Jesus; e ao contrário de outros filmes, eles eram amigos bastante próximos. Para Judas Jesus havia acreditado na estória de que era Deus e havia sido amolecido por Madalena.
Em 1977 surgiu um dos melhores filmes, Jesus de Nazaré de Franco Zefirelli, feito para a TV, ele elaborou de forma bastante conscienciosa, tomando cuidado para não cair em erros passados a imagem de Jesus: o Judeu. Até hoje é considerada a melhor produção por todas as confissões religiosas.
A Última Tentação de Cristo, não obstante ser uma boa obra cinematográfica, no mostrou um Jesus Psicótico. Dependente de todos os que estavam à volta, sem opinião, covarde, indeciso, e quando tomou sua única decisão errou. O Papel de Judas chegou à sua maior elaboração: ele era mais íntegro e honesto, mais corajoso, e compreendia melhor a missão de Cristo do que ele mesmo. É com este Jesus, fraco, indeciso neurótico, que Maria Madalena, se casa; no filme ela se tornou prostituta por causa da rejeição de Jesus. Logo, só a aceitação dele pode fazer com que ela se redima.
O filme de Mel Gibson vai levar a um retorno à imagem tradicional, “Jesus o cordeiro de Deus”; no entanto, diversamente de vários diretores, Gibson, um católico ultra radical, conhece teologia e sabia bem o que estava fazendo ao estabelecer essa imagem.
No Brasil, o Padre Marcelo estabeleceu, a imagem de Jesus um homem cordial, alegre, amigos dos amigos. Bem brasileiro.
Quais as conseqüências disso? Bem, falar de Deus e falar sobre Deus, significa fazer teologia. Aqui não se discute a qualidade desta teologia. No entanto, essa teologia, a forma de ser ver Deus altera sensivelmente o imaginário das pessoas. Não foi à toa que Jesus saiu da condição de ícone intocado e sagrado da nossa cultura e chegou a se tornar uma personagem ligada ao mundo dos meios de comunicação como mais um produto.
O cinema lutou para tornar Jesus um personagem seu, procurou adaptá-lo da melhor forma para as suas necessidades e para o público que o recebia, no entanto, apesar de todas as boas intenções envolvidas em alguns casos, Jesus acabou se transformando num produto. Hoje as pessoas não possuem mais uma imagem unívoca de quem seja Jesus, elas podem escolher numa infinidade de informações, produtos midiatizados, que Jesus ela prefere. Um profeta? Um político? Um médico? Um psicótico? Um gentil? Todas essas imagens convivem, e nem ao menos se disputam espaço. É importante compreender a elaboração dessas imagens no âmbito da cultura e das relações do homem com o sagrado, pois quando dois assuntos entram “em moda” na mídia e são vendidos aos montes para as pessoas do mundo inteiro, só se pode entender este fenômeno de Judas e Madalena, Judas com o Evangelho, e Madalena, com o código da Vinci, se sabendo como ele foi preparado ao longo das décadas pelo cinema e pela TV.
As pessoas se acostumaram com a idéia de que Jesus poderia ter tido uma esposa, se acostumaram com a idéia de que Judas não era tão ruim assim e que tinha motivos sérios e sólidos para trair Jesus, etc, etc, isso faz com que a imagem sagrada que tanto importava para o público seja bastante esvaziada do seu sentido e significação originais. Mesmo seguir Jesus, não significa hoje um caminho único.
Em décadas anteriores os filmes de Cristo eram bastante reprisados no cinema e na televisão. Os brasileiros receberam fortemente a influência do cinema internacional na imagem que possuem de Jesus Cristo. No entanto, o efeito que essa adaptação de imagem teve foi o de fragmentar a sua força e dramaticidade. Uma outra forma de observar um dos seus possíveis efeitos é o fato de que o radicalismo cristão cresce, e cresce com afirmações de uma imagem única de Jesus, coesa, nada dispersiva, como é o caso das Igrejas Evangélicas e Carismáticas, Jesus é o curador. As frases usadas nos cultos são muito simples, repetitivas e pouco elaboradas. Por que toda elaboração dá margem à especulação e a possível fragmentação. Diante da multiplicidade atordoante do século XXI, aqueles que não se adaptam à fragmentação, à miséria, à fome, de toda sorte, agarram-se desesperadamente à imagem sólida de um Jesus, que além de Curador de todos os males é um provedor.
Saímos então da imagem de um Jesus, o cordeiro de Deus que veio ao Mundo para nos salvar, para a imagem de um Jesus que provém para nós o que precisamos para ficar no mundo. Ao longo de um século essa inversão foi bastante radical.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Introdução ao Estudo dos Filmes de Cristo

* Este artigo foi publicado pela primeira vez em Cadernos da Pós-Graduação do Instituto de Artes- Unicamp -versão resumida

Assistir um filme de Cristo na Semana Santa, no período da Páscoa Católica, foi um programa tão comum nos cinemas décadas atrás que todos nos sentimos, de alguma forma, íntimos do assunto. Apesar desta aparente familiaridade este sub-gênero possuí características específicas que necessitam ser levadas em consideração no momento de sua análise. A intenção neste artigo é ressaltar algumas dessas características, tendo como interlocutor William Telford (professor de Origens do Cristianismo e do Novo Testamento no Departamento de Estudos de Religião da University of Newcastle, Inglaterra) tendo em vista o seu artigo "Jesus Christ Star Movie".
Em seu sentido mais característico de ícone, Jesus Cristo é a imagem que domina a cultura ocidental e os filmes que cooperaram em sua elaboração são um importante documento histórico-social (Ferro 1992: 15) da relação do homem contemporâneo com o sagrado. Ainda assim, essa imagem parece guardar para o simples espectador a característica de ser insuspeita de manipulações ou de alterações no significado que ele espera encontrar.
Os Filmes de Cristo passaram a ser, para a grande maioria da população, uma fonte de informação sobre a vida e feitos deste homem, e (Babington e Evans 1993: 16) um eficiente meio de divulgação e popularização dos textos sagrados, quando não são, em última instância o único contato que o espectador contemporâneo tem com o assunto.
O Gênero - No começo da história do Cinema havia uma grande limitação dos gêneros cinematográficos, apenas dois deixavam-se entrever: a pornografia e os filmes bíblicos (Telford 1997: 116). Historicamente o gênero Bíblico evoluiu com altos e baixos e pode-se perceber quatro momentos distintos.
A década de 20 é considerada o período de ouro, pois instituiu o formato do gênero e legou-nos uma produção significativa. Nas décadas de 30 e 40 o terreno para o Épico Bíblico tornou-se árido e pouquíssimas produções datam deste período. Na década de 50 ele recobrou fôlego como um gênero que dava grandes lucros, prosseguiu assim até o início dos anos 60 e depois declinou.
Uma variedade de fatores foram levantados para tentar explicar a sua popularidade, especialmente nos anos 50, como: o mérito estético, o material do assunto religioso, a mentalidade piedosa da audiência americana, os chamarizes do sexo sublimado, violência e espetáculo, o clima imediato do pós-guerra, a luta contra o comunismo, o estabelecimento do Estado de Israel, etc.. Foram sugeridos também uma variedade de fatores para explicar a razão de seu declínio, como: audiências jovens, incremento do secularismo, a competição com a televisão, significativa queda nas bilheterias, escalada dos custos de produção, a liberalização da censura, etc.
William Telford crê que o rápido ressurgimento do gênero na década de 80 seja apenas os seus últimos estertores. Pensa que o herdeiro deste tema cinemático seja a Ficção Científica, pois ela é o ícone mais legítimo de uma sociedade que se seculariza cada vez mais.
No início do século passado as produções eram baratas e sempre acompanhadas por um lucro bastante razoável. Graças a isso, com o tempo se passou a investir cada vez mais e estes filmes acabaram se tornando as vedetes privilegiadas da estréia de inovações técnicas no cinema, como The Ten Commandments (1923) um dos primeiros a se utilizar da fotografia em Technicolor, ou posteriormente The Robe (1953) que encantou a todos com o uso do Cinemascope.
Não eram somente as inovações técnicas o seu atrativo, os atores mais populares eram convocados para estrelarem os papéis mais importantes. Dois diretores, e produtores, marcaram o formato do gênero, D. W Griffiths (Intolerance, 1916) e Cecil B. DeMille (The Ten Commandments, 1923; The King of Kings, 1927).
O Gênero Épico Bíblico pode ser dividido em três categorias: Épicos do Velho Testamento, Épicos Romano-cristãos e Filmes de Cristo.
Épicos do Velho Testamento - The Ten Commandments (Cecil B. DeMille, 1923/1956), Sanson and Delilah (Cecil B. DeMille, 1949), David and Bathsheba (Henry King, 1951), The Prodigal (Richard Thorpe, 1955),etc. Estes filmes têm pouca relevância para o estudo dos Filmes de Cristo, pois não lhe fazem nenhuma menção.
Épicos Romano-cristãos - Ben-Hur (Fred Niblo, 1925/ William Wyler, 1959), The Last Days of Pompeii (Merian C. Cooper, Ernest Schoedsack, 1935), Quo Vadis? (Mervin LeRoy, 1951), Salome (William Dieterle, 1953), The Big Fisherman (Frank Borzage, 1959), e Barabbas (Richard Fleisher, 1962), etc. Estes filmes normalmente ilustram o cristianismo primitivo e personagens que mantiveram estreita relação com Jesus Cristo. São interessantes por que à sua maneira também constróem uma imagem de Jesus.
Os Filmes de Cristo - A terceira categoria do gênero é a mais importante e também a mais prolífica, no que concerne a Hollywood, basta dizer que antes de Cecil B. DeMille ter produzido seu clássico The King of Kings, de 1927, já havia 39 filmes sobre a vida de Jesus Cristo. Por essa razão citarei apenas os mais conhecidos e significativos: From the Manger to the Cross (Sidney Olcott, 1912); The King of Kings (Cecil B. DeMille, 1927); Golgotha (Julien Duvivier, 1935); King of Kings (Nicholas Ray, 1961); The Gospel According to St Matthew (Pier Paolo Pasolini, 1964); The Greatest Story Ever Told (George Stevens, 1965); Jesus Christ, Superstar (Norman Jewison, 1973); Godspell (David Greene,1973); Jesus of Nazareth (Franco Zefirelli, 1977); Monty Python's Life of Brian (Terry Jones, 1979); The Last Temptation of Christ (Matin Scorsese, 1988); Jesus of Montreal (Denys Arcand, 1989).
Questões Próprias aos Filmes de Cristo - Vários caminhos podem ser trilhados para sua análise. William Telford sugere que se perceba: a forma do filme, as fontes, o contexto ideológico e social das produções, o estilo, e a caracterização de Jesus (a imagem física e emocional).
A Forma - Quanto a forma, dentre os doze citados anteriormente oito deles: From the Manger of the Cross, 1912; The King of Kings, 1927; Golgotha, 1935; King of Kings, 1961; The Gospel According to St. Matthew, 1964; The Greatest Story Ever Told, 1965; Jesus of Nazareth, 1977, e The Last Temptation of Christ, 1988; trataram a imagem de Cristo direta, séria e respeitosamente, com atenção aos aspectos históricos e sociais envolvidos.
Em busca da revitalização do tema na década de 70 surgiram: Jesus Christ, Superstar, 1973; Godspell, 1973; os dois são musicais e procuraram adaptar a história de Jesus às necessidades contemporâneas, quais sejam o período áureo da Contra-cultura. O último formato tentado foi o do filme Jesus of Montreal,1989, que trouxe para as telas referências das clássicas encenações da Paixão, este é ao mesmo tempo um formato novo e antigo, pois os primeiros filmes do século XIX e início do XX também obedeciam as encenações.
Outra forma é a da alegoria ou a dos filmes de Figura de Cristo. Estes costumam repetir em seu roteiro, de maneira alegórica, a vida de Cristo, como é o caso, p.ex., do filme E.T.-The Extra-Terrestrial, (1982, de Steven Spielberg), The Passing of the Third Floor Back (Berthold Biertel, 1935), Strange Cargo (John Ford, 1940), ou The Face (Ingmar Bergman, 1958), entre muitos outros. Este fenômeno é tão comum que P. Hurley, citado por Telford, chegou a identificar mais de 60 instâncias em que isto ocorre nos filmes. O filme de Figura de Cristo não está envolvido diretamente na construção da imagem de Jesus, mas sim na sua manipulação.
As Fontes - A primeira e mais conhecida fonte são os Evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João). Eles foram usados de diversas formas, o mais comum é que suas partes sejam selecionadas, harmonizadas e conflagradas. Pode acontecer também que seja utilizado apenas um deles, como foi o caso de The Gospel According to St Matthew (Pasolini, 1964). Os textos Apócrifos também são usados de forma direta ou indireta.
Os romances históricos também são uma fonte importante, mais comuns nos filmes Romano-cristãos. Também já se utilizou textos do historiador judeu Flávio Josefo, e, mais recentemente - a partir da década de 50 - vem se buscando auxílio da arqueologia para uma perfeita reconstituição histórica.
Contexto Social e Ideologia - O momento histórico-social da produção também influencia no formato e conteúdo. Existia, no século XX, uma imagem tradicional de Jesus bastante firmada, e não havia como contraditá-la em demasia sem provocar rejeição social ao filme. A cada novo Filme de Cristo os diretores e produtores enfrentavam críticas de três frentes: protestantes, católicos e judeus. Isto não significa que a imagem seja imutável, muito pelo contrário, pode-se ter uma apreciação considerável das transformações sociais numa determinada época tendo em vista o quanto esta imagem foi adaptável.
O Estilo - Em razão da longa e tradicional construção da imagem de Jesus Cristo, os diretores buscaram freqüentemente inspiração na arte para representar tanto Jesus quanto outros personagens. Cecil B. DeMille diz ter incorporado cerca de 270 pinturas religiosas no seu The King of Kings e outras 200 em The Ten Commandments (1956). Esta utilização não respeita nem mesmo ideologia, pois Pasolini também utilizou o mesmo recurso.
A música surge como outro elemento importante. Tem-se uma idéia de seu uso se pensarmos que DeMille inseriu sonorização em The King of Kings em 1931, e dando ênfase na utilização de hinos cristãos tradicionais em momentos climáticos e no restante colocou apenas efeitos sonoros. Lembremos que a produção da sociedade ocidental sobre Jesus Cristo não concerne tão somente à imagem, mas também à teologia, à música, à pintura, etc; todas essas referências fundem-se de forma complexa nos filmes.
Outro elemento estilístico é a escolha das locações. Os Filmes de Cristo já foram ambientados no Meio-Oeste Americano (Monument Valley), na Tunísia, na Palestina, no Marrocos, entre outras, sempre obedecendo o desejo dos diretores de dar uma ambientação visual o mais próxima possível da suposta paisagem na qual Jesus viveu.
A Caracterização - O primeiro problema é a escolha do ator. Ninguém imagina, p.ex., Arnold Schwarzenegger ou Danny De Vito no papel. O tipo físico e a "moral" do ator são quesitos levados em consideração. Não se costuma convocar um ator que tenha uma imagem negativa vinculada na imprensa (drogas, alcoolismo, jogatinas, etc).
DeMille foi um dos primeiros a entender a mística do papel. Conta-se que, durante a filmagem em 1927, ele não permitia que ninguém visse H. B. Warnner caracterizado de Jesus Cristo fora do set de filmagens. Ele obrigava-o a entrar diretamente no set, descendo do carro no último instante e nele entrando logo em seguida à sua participação. DeMille fez com que no momento em que Warnner estivesse caracterizado ele "fosse Jesus Cristo", dirimindo assim a pessoa do ator.
Um Segundo problema é quanto a conveniência de Jesus ser retratado como um homem de liderança. Esta questão tem significados diversos em momentos históricos distintos. Um exemplo disso seria a representação de Jesus como um homem de tendências pacifistas e com uma tradicional assexualidade na virada da década de 50 para a de 60, típico período da "má consciência e do anti-herói". O antídoto experimentado por Nicholas Ray em King of Kings (1961) foi valorizar os papéis coadjuvantes de Judas Iscariotes e Barrabás, pelo que foi muito criticado.
O terceiro problema é como representar eficazmente o duplo aspecto do Cristo, humano e divino, com certeza o filme que chegou mais próximo de alcançar algum êxito neste sentido foi The Last Temptation of Christ (1988), no entanto, ainda assim, pareceu um filme confuso para muitos espectadores.
O quarto problema já citado de forma implícita é a vigilância das instituições religiosas, que controlaram rigorosamente a representação da imagem de Jesus no cinema até a década de 60. No começo do século XX através de pressão, pouco depois estabeleceu-se o Código Hays e com o seu declínio nos anos 60, a pressão continuou existindo na figura da "Catholic Legion of Decency" nos Estados Unidos. Na Inglaterra o "Britsh Board of Film Censors" a partir de 1912, baniu toda e qualquer representação da imagem de Jesus Cristo no cinema, esta situação foi alterada apenas no período posterior à Segunda Guerra. Nestes anos todos, os censores britânicos fizeram exceção para a exibição de apenas dois filmes: The King of Kings (1927) e Ecce Homo (1935).
Produção Teológica - Qualquer discurso narrativo, musical, imagético, etc., sobre Deus, pressupõe necessariamente uma construção teológica à priori - e ou a posteriori, como resultado de uma fusão heterogênea de idéias (Marsh 1997: 22). Em alguns casos, como em The King of Kings (1927) e The Gospel According to St Matthew (1964) fez-se teologia explicitamente. Eles não possuem apenas idéias dispersas e confusas sobre o assunto, muito pelo contrário, constróem deliberadamente uma mensagem teológica.
Conclusão - Tendo em vista a proposta do artigo ser uma "Introdução" esta também só pode ser uma conclusão introdutória. Estudar a construção da Imagem de Jesus Cristo no cinema, ou nas diversas mídias, mais do que crítica historiográfica ou cinematográfica, exige uma qualidade hermenêutica do pesquisador. A Hermenêutica (Tilich 1985: 3) propõe a compreensão destes fenômenos religiosos, históricos e sociais. Diferentemente da pesquisa em geral do século XX, carregada de pressupostos ideológicos, e em alguns casos religiosos, o estudo da Imagem de Jesus Cristo só tem sentido se isso torná-la mais compreensível para todos os segmentos sociais envolvidos, sejam eles confissões religiosas, setores da academia ou a população em geral.
As diversas confissões religiosas tiveram suas razões para censurar a representação desta imagem, e não poucas razões, pois antes de qualquer coisa ela representa uma forma de se fazer teologia. Ela é um discurso religioso, mesmo quando o filme foi feito por um materialista. Não cabe aqui uma defesa da censura, muito pelo contrário. O que pude perceber assistindo e pensando nestes vários filmes é que as imagens (aglutinadas, escolhidas, selecionadas, etc) dão uma mensagem teológica, e, esta mensagem é muitas vezes sutilmente diferente daquela das confissões religiosas mais tradicionais. E, sutilmente não é pouco. Historicamente sabemos que muitas vidas se perderam em questões religiosas, onde uma sutileza foi o suficiente.
Analisar, criticar, historiar e, enfim, compreender como este fenômeno se deu, sem laivos doutrinários ou acadêmicos, buscando democratizar a discussão e os resultados parece-me uma boa forma de se iniciar esta questão.
Bibliografia Miníma
BABINGTON, B. & EVANS, P. W. Biblical Epics. Sacred Narrative in the
Hollywood Cinema. Manchester: Manchester University Press, 1993.
COUVARES, Francis G. Org. Movie Censorship and American Culture.
Washington, London: Smithsonian Institution Press, 1996.
FERRO, Marc. Cinema e História. S. Paulo: Paz e Terra, 1992.
MARSH, Clive & ORTIZ, Gaye. org. Explorations in Theology and Film.
Massachusetts, Blakwell Publishers Ltd., 1997.
TELFORD, William R. "Jesus Christ Movie Star: The Depiction of Jesus in the
Cinema" in: MARSH, Clive & ORTIZ, Gaye. org. Explorations in Theology
and Film. Massachusetts, Blakwell Publishers Ltd., 1997.
WALSH, Frank. Sin and Censorship - The Catholic Church and the Motion
Picture Industry. Yale University Press, New Haven & London, 1996.