terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Cinema e Transcendência. Um debate. IHU-On-Line

O IHU-On-Line  publicou um número especial sobre Cinema e Transcedência. Creio que este foi um numero inovador, pois todas as entrevistas que li estavam propondo um olhar diferenciado para o Cinema e a Religião. Um número bastante feliz desta conceituada revista. Aproveitar para agradecer o convite que me fizeram para participar desta edição.

Acessem
http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4830&secao=412

Cinema e transcendência. Um debate

Pasolini, Bergman, Lars von Trier, Malick, Cameron, diretores de obras como o clássico O Evangelho segundo São Mateus até o mais recente Avatar, passando por importantes diretores indianos, japoneses, chineses e coreanos, são alguns nomes do atual panorama cinematográfico debatidos nesta última da edição da IHU-On-Line deste ano, que discute os diferentes e controversos modos de presença da transcendência no cinema contemporâneo.
 
Contribuem para o debate Andreia Vasconcellos, Faustino Teixeira, Flávia Arielo, José Abílio Perez, Júlio Cézar Adam, Luiz Vadico, Rodrigo Petronio e Luiz Felipe Pondé.

sábado, 1 de dezembro de 2012

A atualidade da cristologia fílmica

O historiador Luiz Vadico examina a importância dos filmes sobre Jesus Cristo no debate acerca de sua figura histórica e por que essas produções continuam a despertar tanto interesse

Por: Márcia Junges e Stefanie Dal Forno

A vida de Cristo inspirou e continua inspirando um sem-número de produções cinematográficas. De acordo com Luiz Vadico, “dados relativos à qualidade da produção, a junção com o calendário religioso, e agora a facilidade de obtenção destes filmes que se tornaram clássicos do imaginário popular, são dados que permitem que essas produções sejam continuamente vistas e revisitadas”. Analisando a apreensão “pop” da imagem de Jesus Cristo, Vadico acentua: “acredito que ser ‘pop’ é muito pouco para Ele. Ele é considerado Deus, está para além do humano sem deixar de sê-lo. Então, não pode entrar de qualquer forma num panteão organizado pela mídia. Dizer que ele é um ícone pop significa exatamente isso, remetê-lo à geleia geral”. E arremata: “É necessário encontrar uma expressão digna, justa e santa daquilo que é sagrado para todo o Ocidente. Deus precisa ser propagado, mas ele não é mercadoria”. As afirmações fazem parte da entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Licenciado e bacharelado em História pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, Luiz Vadico possui mestrado e doutorado em Multimeios pela mesma instituição. Atualmente, é professor titular da Universidade Anhembi Morumbi, supervisor do Centro de Estudos do Audiovisual - UAM, e professor de Comunicação, Estética e Cultura de Massa no curso de Extensão em TV para a Televisão Pública de Angola - TPA, em Luanda, Angola. É também membro do Conselho Editorial da revista Interatividade e membro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual - Socine. Além disso, Vadico é também escritor e poeta. Escreveu Filmes de Cristo. Oito aproximações (São Paulo: Editora à Lápis, 2009). Ele estará na Unisinos em 31-03-2011, apresentando dois eventos da programação Páscoa IHU 2011 – Debates sobre o cuidado da vida na cultura contemporânea. O primeiro evento está marcado para as 17h30min, quando proferirá a conferência Cristologia fílmica. O segundo inicia às 19h30min e é intitulado Ficção e imagens de Jesus no Cinema.


Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a importância da cristologia fílmica no debate acerca do Jesus histórico?

Luiz Vadico -
A sua questão é bastante interessante. Ela pode ser observada sob diversos ângulos e aspectos. O mais direto seria inicialmente: “o que a pesquisa relativa ao Jesus histórico afeta a produção fílmica”. O século XIX é conhecido como um momento em que se manifestou um profundo gosto pelo realismo, e aí o realismo considerado sob todos os aspectos, imagens naturalistas, locações autênticas, cenários adequados, vestimentas das personagens o mais autênticas possíveis. Enfim, o gosto pelo realismo, que já fazia parte do cotidiano do século XIX, estende-se para as primeiras produções cinematográficas e nelas finca fortes raízes.
Neste sentido é importante notar que três filmes importantes do início do cinema possuíam uma forte influência do orientalista francês James Tissot , que havia, imbuído do espírito de pesquisa, viajado à Terra Santa para realizar aquarelas que tivessem o espírito do local, para criar personagens para seus quadros que tivessem a expressão facial e racial da população local. Uma busca pelo verdadeiro “rosto” de Jesus Cristo, realizada através da visita aos locais sagrados, recolhendo traços, paisagens, edificações, detalhes estes que comporiam as importantes aquarelas que realizou e publicou sob o título de Vida de Cristo, estas, por sua vez, fariam imenso sucesso e seriam utilizadas como referência nos filmes La Vie et la Passion de Jesus Christ (Zecca/Nonguet/1902-3), La Vie du Christ (Alice Guy/1906), e Da Manjedoura à Cruz (Sidney Ollcott/1912). Este último filme também apontava para o gosto do real acima de tudo, uma vez que ele foi apropriadamente realizado na Terra Santa. Como vemos, neste caso temos uma relação direta entre “pesquisa sobre o Jesus histórico” e o cinema também considero Tissot entre aqueles que se dedicaram a estes estudos.

Dois Messias
Em outro momento importante da história dos filmes de Cristo, observamos que o diretor Nicholas Ray propõe em seu filme Rei dos Reis (1961) a possibilidade de dois messias: um da paz (Jesus) e outro da guerra (Barrabás), e não é coincidência que também existia referência a dois messias em textos dos antigos essênios, descobertos recentemente àquela época, em 1947, nas cavernas do mar Morto, em Qunram.
Observaremos esta relação de Jesus com os essênios uma vez mais em A Última Tentação de Cristo (1988), de Martin Scorsese, mesmo que ela tenha vindo de segunda mão, pois deriva do romance do qual o filme foi adaptado. Podemos notar a profunda pesquisa histórica relativa ao judaísmo antigo, realizada por Franco Zeffirelli, para o seu Jesus de Nazaré (1977) e que afeta a imagem final de Jesus deixando-o mais próximo ao judaísmo, em conformidade com a afirmação de judeidade do Cristo encontrada na obra de diversos autores como Jeremias.

Poderíamos ficar dias e dias perscrutando pequenos detalhes sobre como a pesquisa do Jesus histórico, em termos arqueológicos e acadêmicos, afetou as produções cinematográficas. No entanto, é fundamental que se perceba que a produção sobre o Jesus histórico chega mais rapidamente às telas do que as igrejas. Jesus está mais essênio em Rei dos Reis, ao mesmo tempo em que em A Última Tentação... A sua suposta ligação com os essênios é amadurecida e discutida.

IHU On-Line - Por que filmes que retratam Jesus continuam sendo tão atuais e assistidos?

Luiz Vadico –
Várias razões cooperam para que estes filmes continuem sendo vistos, revistos, revisitados e sirvam ainda como modelos para os futuros filmes de Cristo. A vida de Jesus Cristo é para o Ocidente um assunto muito especial. Desde o início da história do cinema já se tinha isso muito claro em mente: quem irá fazer o filme deve ser um diretor bastante experiente, o cenário o melhor possível, os figurinos, os atores, tudo do bom e do melhor. Neste investimento também iam as novas tecnologias agregadas. No Primeiro Cinema a Paixão da Pathé já era vendida em cores em 1903 (pintada à mão); em 1927, Em O Rei dos Reis de Cecil B. DeMille, realizava-se a cena da ressurreição de Cristo em cores, utilizando processos ainda experimentais. No Brasil, colocavam-se atores atrás da tela para fazerem as “falas” dos atores do filme, durante a Semana Santa, para dar ainda maior realidade ao filme. É interessante lembrar que o mesmo se fazia com as imagens de Jesus e da Virgem na procissão da sexta-feira da Paixão. Dada essa condição de “coisa especial” do assunto, o filme também se tornava veículo de inovações e expectativas populares.

Também havia algo importante relativamente a estes filmes. Graças à sua existência, os cinemas podiam funcionar em feriados de dias santos; isso é curioso, pois funcionou igualmente para o Brasil e para os Estados Unidos. Então, projetar estes filmes era uma opção para burlar a proibição de manter as portas abertas. Aliado a este fato vem o calendário litúrgico. Muito cedo se associou a projeção de imagens da vida de Cristo, ou de produções com assunto religioso, a dias específicos do calendário religioso, Natal, Páscoa, Corpus Christi, etc. Isso possibilitou que todos os anos as pessoas esperassem ver este tipo de produção nos cinemas (atualmente este processo continua na TV). Não chega a ser “espantoso” pois também há a programação relativa às férias escolares, e às datas comerciais. Mas estes dados relativos à qualidade da produção, a junção com o calendário religioso, e agora a facilidade de obtenção destes filmes que se tornaram clássicos do imaginário popular, são dados que permitem que estes mesmos filmes sejam continuamente vistos e revisitados.
Claro, para além de tudo isso, existe também a questão afetiva. Aqueles que viram estes filmes na infância desejam revê-los ou mostrá-los para seus filhos, estes por sua vez são influenciados pelas novas atualizações da imagem de Jesus Cristo. Esperemos que seja um ciclo sem fim.

IHU On-Line - Jesus pode ser considerado um ícone pop? Por quê?

Luiz Vadico -
Madona é um ícone pop, Queen é um ícone pop, Michael Jackson é um ícone pop, Bhritney Speers, Rihana, Rick Martin, Bono Vox, Abba, Marilyn Monroe e Mickey Mouse são ícones pops. Todos eles. E podemos pensar em muitos outros. Você consegue encaixar Jesus Cristo aí?! Acredito que no sentido geral da palavra “pop” que só quer dizer “popular” ou de “massa” alguém poderia considerar Jesus Cristo como um ícone pop. O pop, porém, é um fenômeno cultural bem localizado no século XX (e adentrando o XXI). Podemos atualizar, e reatualizar, a imagem e até os ensinamentos de Jesus Cristo. Mas ele fez parte de um outro tempo, uma outra civilização.

Sem detrimento de qualquer uma das pessoas citadas, acredito que ser “pop” é muito pouco para ele. Ele é considerado Deus, está para além do humano sem deixar de sê-lo. Então, não pode entrar de qualquer forma num panteão organizado pela mídia. Dizer que ele é um ícone pop significa exatamente isso, remetê-lo à geleia geral. Ainda que a sua imagem possa ser explorada pelas mídias dessa forma, que ele possa ser propagandeado, etc., trata-se, sobretudo, de um profundo equívoco de quem quer que seja que deseje fazer Jesus Cristo ombrear com qualquer outra expressão humana que remeta ao banal, ao fútil, ou ao mercado de consumo.

Deus não é mercadoria
Não discordo das diversas formas que se utilizam para levar Jesus Cristo às multidões. Não discordo de padres e freiras que cantam e dançam e nem de reformas litúrgicas. No entanto, assim como os primeiros padres e pastores que se colocaram em uma posição de cuidado relativamente à produção de imagens, eu também assim me situo. É necessário encontrar uma expressão digna, justa e santa daquilo que é sagrado para todo o Ocidente. Deus precisa ser propagado, mas ele não é mercadoria. E é essa a distinção que podemos fazer: os ícones pops são mercadorias.

Você poderia ainda argumentar: “mas a imagem de Jesus Cristo já não vem sendo mercadejada no cinema e na TV?” Sim e não. Para cada uma das produções cinematográficas sempre houve discussão dos produtores com os interessados das diversas religiões envolvidas. E quando assim não aconteceram, alguns problemas e protestos ocorreram. Essa imagem pop de Jesus Cristo nasceu destas lutas entre o interesse de mercado e o interesse das religiões. Então, mesmo ela não pode ser tão pop quanto se imagina. Mas que fique claro – isto não significa impedir a criatividade artística, a expressão de fé de quem quer que seja ao fazer de Jesus Cristo uma leitura pessoal, muitas vezes projetada para uma coletividade. As novas leituras e imagens de Jesus que se criam a partir do audiovisual são um reflexo de nossa própria época, de nossa própria maneira de refletir sobre quem é Jesus. E isto sempre será algo bom e interessante.

IHU On-Line - Como surgiu o interesse em analisar produções cinematográficas cujo personagem principal é Jesus Cristo?

Luiz Vadico -
O interesse surgiu por acaso. Eu havia apenas terminado meu mestrado em Multimeios na Unicamp (2000), que versava sobre o tema da viagem no Tempo em produções Hollywoodianas (e que acabou intitulado O 13º Macaco ou a Estratégia Social de Evasão do Tempo: um panorama sobre o tema da viagem no tempo em filmes de produção hollywoodiana), quando em visita a uma livraria, em Jaú, onde meus pais moram, um livro me chamou particularmente a atenção: A imagem de Jesus ao longo dos séculos (São Paulo: Cosac & Naify, 2000), livro de Jaroslav Pelikan , um respeitado historiador das religiões radicado nos Estados Unidos. Nessa obra Pelikan partia da ideia encontrada nos Evangelhos de que Jesus “é o mesmo, ontem e hoje” para indagar-se sobre o que havia mudado em nossa percepção sobre Jesus ao longo dos séculos, sobre se ele, para nós, era realmente imutável. O autor fez um grande percurso ao longo da história da arte. Após folhearmos atenta e avidamente o livro, notamos que ele não tratava das imagens de Jesus elaboradas no cinema e nem na TV.

Ora, desde minha graduação em História, eu era um apreciador de tudo o que dizia respeito ao século I (século I A.C. e D.C.); já havia lido muito sobre as pesquisas relativas ao Jesus histórico e sobre a Roma Antiga; estava até mesmo ensaiando um romance que se passaria naquela época. De repente, a ideia encontrou terreno fértil: eu iria juntar dois assuntos que me fascinavam – Jesus Cristo (séc. I) e as transformações sociais causadas pelo Cinema. A isso se juntou um terceiro item: a minha formação com ênfase em História da Religião. Até então eu havia estudado o espiritismo no Brasil. Naquele momento eu não sabia dimensionar o tamanho do “problema” no qual estava adentrando. Eu nem imaginava que, ao dizer “imagem”, Jaroslav Pelikan também queria dizer “títulos cristológicos”, e que estes mesmos títulos cristológicos eram o próprio fundamento de uma área da Teologia chamada de Cristologia, coisas que fui aprendendo ao longo da pesquisa.

Aqui cabe citar uma curiosa coincidência. Barnes Tatum, outro teórico do assunto, na introdução de seu livro Jesus at the Movies: A Guide to the First Hundred Years (Santa Rosa: Polebridge Press, 1998), também se diz inspirado pelo livro de Jaroslav Pelikan. Penso que o tempo estava maduro para o florescimento do tema, pois vários livros foram publicados nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Escócia, acerca da representação de Jesus cristo no cinema. Vários ainda titubeando relativamente aos caminhos a serem seguidos. Mas, hoje, já contamos com bibliografia interessante e até mesmo farta.

IHU On-Line - Como é realizada essa análise?

Luiz Vadico -
Em termos gerais, trata-se de uma análise fílmica. No entanto, ela é realizada por meio da verificação de alguns quesitos específicos do produto midiático “filme de Cristo”. Quando se trata de verificar a questão cristológica existe um a priori importante da análise: o filme deve tratar da vida de Jesus Cristo como um todo. Porque um título cristológico deve ser verificado no todo da vida de Jesus; por exemplo: ao se afirmar que Jesus é um profeta, devem-se observar na trajetória da sua vida, nos testemunhos que ele deu e que deram sobre ele, no que ele pregou e ensinou, as características que perfazem a figura do “profeta”, conforme esta é pensada no mundo bíblico. Assim, ele não é apenas chamado de profeta, mas possuímos elementos para afirmar que ele realmente é um profeta. Isso quando falamos em títulos cristológicos nos evangelhos canônicos.

Nos filmes realizados para cinema e para TV, apesar do seu conteúdo não possuir a qualidade sacral dos evangelhos, o mesmo processo deve ser realizado. Leva-se em consideração o todo da vida de Jesus como nos é mostrada na narrativa fílmica.

A partir dessa premissa, os outros elementos a serem considerados, são: a seleção do (s) filme (s); o texto de base; o texto fictício; o conteúdo imagético das cenas versus o conteúdo literal dos evangelhos; as afirmações verbais encontradas na diégese; a escolha dos atores (corpo de Cristo); a psicologia da personagem (plana, normal ou complexa); verificar as afirmações do cineasta; comparar o filme analisado e aqueles que o antecederam; o sentido do filme como um todo; o contexto histórico e social da produção; e, por fim, a recepção do filme por seus contemporâneos. Após a verificação de cada um destes itens temos condições de afirmar qual é a imagem cristológica que prevalece naquele determinado filme verificado. No entanto, cada um destes itens citados necessitam ser melhor explicitados. Neste caso, sinto que seria interessante remeter o leitor para um artigo nosso publicado pela Revista Alceu, da PUC-Rio, Cristologia fílmica: subsídios teórico-metodológicos para a análise da produção de imagens cristológicas geradas no cinema e na TV (Disponível em: http://acessa.me/b545).

IHU On-Line - O diálogo existente entre os diversos filmes sobre Cristo configura que tipo de alteração significativa na sua história?

Luiz Vadico -
O fator comparativo possibilita contrastar inovações, sejam tecnológicas, narratológicas ou estéticas. Em diversos momentos da história do cinema a imagem de Jesus passou por elaborações fictícias, e a exibição pública - e repetição - ao longo da passagem do tempo, permitiu a sua consolidação cultural. Nesta questão colocada por você, o importante não é tanto as alterações na “história” quanto na interpretação da história. Um item marcante neste diálogo entre diversos filmes é o problema da “desculpabilização dos judeus” da morte de Jesus. Desde o início da história do cinema este problema surgiu. E é interessante notar como as diversas produções lidaram com esta situação. Algumas, como, por exemplo, o filme Rei dos Reis (1961), do diretor Nicholas Ray, traz um julgamento de Jesus por Pôncio Pilatos, no qual a multidão e os sacerdotes judeus não estão presentes e não são nem sequer mencionados; o roteirista e o diretor criaram ainda uma personagem – Centurião Lucius – que funciona como uma espécie de advogado de Jesus. Claro, este é um exemplo extremo.

Ao longo da história do cinema ocorrem muitas sutilezas que são vistas como adequação da história como material fílmico, e que terminam por significar alterações sensíveis. Nos filmes de maior aproximação com o catolicismo encontramos uma participação muito mais efetiva da Virgem Maria; ela se encontra costumeiramente como figurante ou participante ativa em situações evangélicas nas quais ela jamais foi mencionada textualmente. Há personagens que são brevemente citadas nos evangelhos, como José de Arimateia, e Nicodemos, que recebem papéis de relevo e destaque na trama fílmica, coisa, que, de fato, parecem não ter tido. Neste caso são exemplos O Cristo Vivo, de 1952, Eu vi sua Glória!, de 1953, ambos da produtora americana Cathedral, e Jesus de Nazaré, de Franco Zeffirelli, lançado em 1977. Essas adequações normalmente têm consequências; por exemplo, Julien Duvivier, conhecido cineasta francês, fez a primeira ampliação do papel de Pôncio Pilatos e sua esposa Cláudia; ele nos mostrou o casal como simpáticos romanos tentando salvar a vida de Jesus, em Gólgota, de 1936. O efeito disso foi mostrar os judeus com a sua pretensa culpa extremamente agravada. Se nos lembrarmos que aquele era um período de forte sentimento antissemita e que poucos anos depois Hitler enviou milhões de judeus para a morte, poderemos ter uma pálida ideia do peso que ligeiras alterações podem significar em determinados contextos sociais.

IHU On-Line - De que maneira esta nova área de estudos se faz importante para os religiosos e para o público em geral? Que compreensões são possíveis a partir desse estudo?

Luiz Vadico -
Vou responder à sua pergunta com uma provocação: que importância a cristologia tem? Como ela se faz importante? A cristologia fílmica não é em nada diferente da cristologia que, de certa forma, fundamenta a Teologia; como comentei anteriormente, a diferença é da “qualidade do conteúdo”: uma é proveniente dos textos dos evangelhos canônicos a outra é proveniente do conteúdo dos filmes. O grande público já vem recebendo preferencialmente as suas informações históricas, imagéticas, e até mesmo religiosas, dos produtos midiáticos, e isso já se conta por pelo menos quatro décadas. É importante notar que uma teologia voltada para os produtos audiovisuais tem a vantagem de conseguir saber qual é a imagem de Jesus Cristo que os seguidores de suas religiões estão recebendo, e como trabalhar com esta imagem, ou imagens. Pois não deve ser incomum o fato de que o fiel possui na cabeça um Jesus midiático, diverso daquele que está sendo ensinado dos púlpitos e altares.

Praticar a cristologia fílmica pode ajudar a lidar com este descompasso que a modernidade nos colocou. Provavelmente os fiéis nunca tiveram tanto acesso a informação sobre Jesus Cristo e sua vida. Todavia, é uma necessidade moderna também que os teólogos se voltem para estes novos “textos sagrados” e traduzam deles para os fiéis a face de Cristo elaborada pelos diversos meios de comunicação.
Neste sentido gostaria de sugerir outro artigo nosso, que se encontra no livro novo Filmes de Cristo. Oito aproximações (São Paulo: Editora à Lápis, 2009). É o capítulo “The King of Kings – Uma Teologia da Luz” se trata de um primeiro esforço nosso de verificar uma cristologia específica num filme; acredito que ele pode servir como um esboço de trabalhos que poderão vir a serem feitos posteriormente. Isto porque eu mesmo não me dedico à Teologia e nem à Cristologia, pois meu trabalho neste caso é só apontar a sua existência, pensar nos métodos e ferramentas. O trabalho de teólogo propriamente dito deixo para os profissionais da área. E, posso estar errado, mas este trabalho começa propriamente dito a partir do momento em que uma nova “imagem de Jesus” é apontada. Aí, descobrir seus significados, desenvolvimentos e repercussões, penso ser vinculado ao campo do teólogo.

A importância da cristologia fílmica está na sua necessária aplicação. O que dizer de documentários televisivos como A Tumba Perdida de Jesus? Ou A Verdadeira História de Maria Madalena? Isto sem falar de Desconstruindo o Código Da Vinci ou o próprio filme O Código Da Vinci. Enfim, conhecer as “imagens de Jesus” mesmo quando são elaboradas de forma fragmentária – como nos caso destes filmes e documentários citados – é de extrema importância para se compreender os rumos que deve tomar uma teologia moderna, preocupada com este conhecimento que está sendo construído no audiovisual, e quem sabe até utilizando-o de forma interessante para novos construtos teológicos. Existe uma questão no ar, e sinto que cedo ou tarde ela cobrará uma resposta: Seria o imaginário relativo ao sagrado - elaborado e acolhido pelo audiovisual - tão importante quanto o próprio sagrado? Em que medida eles se afetam? Quando uma pessoa assiste a um filme de Cristo e não acredita naquele Jesus apresentado, o quanto esta resposta negativa não afeta a sua percepção de quem seja o Cristo? E quando ela acredita, que Cristo é aquele? Como podemos perceber, o que não faltam são questões importantes a serem respondidas. Esperamos ajudar um pouco neste processo de estudo destas construções imagéticas.

(Entrevista publicada no IHU-On line em 28 de março de 2011)

sábado, 14 de abril de 2012

Publicada a versão revista do artigo "O Campo do Filme Religioso"

Aos que se interessarem por filmes de assunto religioso a Revista Olhar (Ufscar) gentilmente publicou meu artigo "O Campo do Filme Religioso" no qual faço uma introdução ao assunto e teço algumas considerações teóricas. Segue o link. Aproveitem também o belo projeto editorial da revista.  http://revistaolharufscar.wordpress.com/tag/luiz-vadico/

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Preparando artigo para Socine

Em bre Angeluccia, Miguel pereira, vamos estar novamente sintonizados para mais uma Mesa na Socine. Provavelmente iremos tratar de hagiografia fílmica. Estou aqui pensando em atacar academicamente o tema mais candente de relgião e Cinema do último século: Maria Madalena! Vou verificar a evolução da personagem ao longo da história do Cinema e tentar mapear a sua influência.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O “Cristo da Fé” e o “Cristo Cinemático”. As imagens de Jesus no cinema

Migração da arte pictórica para as telas, as alterações que a representação de Cristo sofreu em diferentes produções cinematográficas e o sentido da Páscoa são analisados pelo historiador Luiz Vadico



Por: Márcia Junges e Graziela Wolfart

Examinar as produções cinematográficas cujo personagem principal é Jesus Cristo. Esse é um dos temas da entrevista a seguir, realizada por e-mail com o historiador Luiz Vadico. Para ele, os filmes A vida e a Paixão de Cristo – A paixão da Pathé, Vida de Cristo – A paixão da Gaumont e Da manjedoura à cruz são os três mais importantes sobre a vida de Cristo no Primeiro Cinema. Segundo ele, “há um fenômeno bastante interessante que ocorre nos filmes de Cristo. Como a história é conhecida e é basicamente a mesma, em geral os produtores e ou diretores conhecem as produções realizadas até o momento em que decidem fazer as suas próprias. Isso faz com que haja um diálogo entre estes diversos filmes, onde ou ocorrem referências ou a experiência dos antecessores é aproveitada”.

Licenciado e bacharelado em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luiz Vadico possui mestrado e doutorado em Multimeios pela mesma instituição. Atualmente, é professor titular da Universidade Anhembi Morumbi, supervisor do Centro de Estudos do Audiovisual (UAM), e professor de Comunicação, Estética e Cultura de Massa no curso de Extensão em TV para a Televisão Pública de Angola (TPA), em Luanda, Angola. É também membro do Conselho Editorial da Revista Interatividade e membro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine). Além disso, Vadico é também escritor e poeta.

Na programação do evento de Páscoa do Instituto Humanitas Unisinos deste ano, Vadico apresentou três conferências. A primeira, no dia 18 de março, em Porto Alegre, na Usina do Gasômetro, teve como título “Jesus no primeiro Cinema. Estética e Narrativas”. E no dia 19 de março ele falou, na Unisinos, sobre “A paixão de Cristo no primeiro Cinema. Influências Artísticas, estética e narrativa” e sobre o tema “Imaginando o Divino. Representações de Jesus no Cinema”. As três conferências também foram exibidas na Unisinos, dentro da programação Páscoa IHU 2009.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em termos gerais, como você analisa as adaptações da vida de Cristo pelo cinema?

Luiz Antônio Vadico - É um tanto quanto difícil falar “em termos gerais” sobre as adaptações, pois cada uma delas teve especificidades bastante próprias. Pensar em algo que seja comum a este universo de produção pode causar alguns equívocos de interpretação. No entanto, para atender à questão, acredito que se pode dizer que estes filmes sobre Cristo são, sobretudo, um ponto de encontro entre interesses. O interesse dos produtores em ampliar seus lucros (atraindo um público que não frequentava o cinema nos primeiros anos de sua história, mulheres e crianças); o dos exibidores (ao poderem abrir as portas dos seus estabelecimentos em dias consagrados ao descanso); o dos religiosos que poderiam ter seu trabalho de catequese ampliado pela utilização dos filmes; e, por ultimo, o interesse do público em participar de um espetáculo que o remetesse às raízes da sua fé.

Neste encontro (e às vezes entrechoque) de interesses, podemos perceber, ao longo do século XX, o esforço realizado pelos empresários do entretenimento para se apropriarem da imagem de Jesus Cristo. Enquanto ela se mantivesse somente no âmbito religioso ela se manteria “intocada”, distante de adições ou manipulações fora do contexto sacral. No entanto, no processo de adaptar a Vida de Cristo para o Cinema e depois para a TV, tendo em vista as necessidades do meio, a imagem de Jesus Cristo acabou por fim se tornando de “domínio público”.

Alterações fictícias de Jesus

No início da história do Cinema, Jesus era o Filho de Deus, cuja representação por um homem que não fosse de origem divina como ele, poderia ser questionada. Atualmente, Jesus é uma personagem do Cinema, diferente – e talvez até um pouco distante – do Cristo do universo das Igrejas. Ele pode ser apresentado se “casando” (A última tentação de Cristo, 1988) ou como um “Clown” (Godspell, 1972). Essas alterações fictícias da sua vida e personalidade sempre causarão mal-estar. No entanto, elas só se tornaram possíveis porque os meios de comunicação venceram o embate pela imagem de Jesus Cristo. Mas isso não os tornou donos de “Cristo”, pois um dos resultados importantes deste processo é o fato de que os “fiéis” sabem distinguir bastante bem entre o “Cristo da Fé” e o “Cristo Cinemático”.

Creio que, neste embate entre empresários do entretenimento e religiões institucionalizadas, todos ganhamos de alguma forma. A imagem de Jesus Cristo se tornou ainda mais plural e suas várias representações se tornaram como que um exercício para os fiéis, através do qual ele reconhece o “Cristo” que está mais em conformidade com o seu coração.

IHU On-Line - Por que considera os filmes A vida e a Paixão de Cristo - A paixão da Pathé, Vida de Cristo – A paixão da Gaumont e Da manjedoura à cruz os três mais importantes sobre a vida de Cristo no Primeiro Cinema?

Luiz Antônio Vadico - A Paixão da Pathé, de 1902/3, dirigida por Ferdinand Zecca e por Lucien Nonguet, importa em primeiro lugar por ter se tratado de um filme que foi realizado a partir de um esquema industrial de produção e distribuição, o que também é uma inovação para a época. O seu grande sucesso permitiu para a Pathé francesa um lucro imenso, pois foram vendidas milhares de cópias, coisa que permitiu alavancar a produção de diversos filmes realizados posteriormente. Além disso, o esforço estético ocorrido, e que foi muito apreciado, levou ao surgimento de uma nova produtora, empenhada em produzir obras de alta qualidade, chamada Film d’Art, que marcaria bastante a produção cinematográfica daqueles anos.

O sucesso da Paixão da Pathé repercutiu não somente na estética, mas também no aumento do custo dos filmes e do tempo de duração das novas produções. Além disso, o filme trazia algumas inovações, como a utilização do movimento de câmera, e já algumas situações fictícias na trama envolvendo Jesus.

Paixão da Gaumont

A Paixão da Gaumont, de 1906, se opõe, em parte, àquela produção, pois esteticamente está propondo uma imagem mais realista dos momentos decisivos da Paixão de Cristo. Há uma busca bastante séria em se fazer um adequado contexto histórico e social da vida de Jesus; a sua diretora, Alice Guy, tem no pintor francês James Tissot seu principal inspirador; principalmente por causa do extenso trabalho de pesquisa e levantamento realizado por ele na Palestina e no Egito. Podemos também sentir a influência de Zecca sobre essa nova produção, pois o mesmo diretor deixou a Pathé, em 1904, e acabou por trabalhar na Gaumont por algum tempo, e sua influência pode ser sentida com bastante clareza nas cenas relativas à Ressurreição de Jesus Cristo.

Da Manjedoura à Cruz

A estética de Tissot pode ser vista ainda muito mais claramente em Da manjedoura à cruz, de 1912, sob a direção de Sidney Olcott – produzido pela Kalem Company -, cujo principal mérito é ter sido o primeiro filme sobre a Vida de Jesus Cristo inteiramente rodado na Palestina.

Mas os fatores que unem as três produções de fato são a estética e o sucesso de vendas e público. A Paixão da Pathé foi o primeiro a dar um passo importante, melhorando os cenários, a movimentação em cena e buscando dar espacialidade aos diversos planos; escolheu uma estética mais “naif”, pois as imagens representadas lembravam muito as pinturas de santos nas paredes das igrejas católicas; A Paixão da Gaumont se impôs pelo realismo sem ingenuidades, acertando em cheio no gosto do público do início do século XX; e ampliando este quesito, Da manjedoura à cruz, faz a suprema proposta de “realismo” ao filmar a Vida de Cristo no lugar onde ela transcorreu.

Acredito que essas razões são suficientes para que possamos compreender a importância e o impacto que estes filmes tiveram sobre a época e sobre a história do desenvolvimento da prática cinematográfica.

IHU On-Line - Como o corpo de Cristo é representado nessas produções?

Luiz Antônio Vadico - O Corpo de Cristo possui um lugar central em nossa cultura. Então, sempre é de interesse observar como ele vem sendo mostrado e trabalhado nos diversos filmes. Nestas três produções ocorre uma modificação visual importante. Nos filmes de Peça da paixão, que surgiram a partir do ano de 1897, o corpo de Jesus e mesmo o de todos os outros personagens apareciam recobertos por uma espécie de maiô, e sobre ele os atores colocavam as roupas do figurino. No entanto, este maiô de algodão branco acabava por fazer dobras sobre o corpo dos atores, o que resultava em algo pouco elegante. Não sabemos dizer ao certo se eles utilizavam este maiô por uma questão de pudor ou se era para abrigar os atores do frio, pois com a diferença de muitos poucos anos a prática foi abandonada. O primeiro filme em que o corpo de Jesus aparece semidesnudo é A Paixão da Pathé, e isso não causou nenhum constrangimento; o mesmo foi feito pelas outras duas produções já citadas anteriormente.

De 1902 até 1912, ocorre um claro progresso na manipulação do Corpo de Cristo, pois num primeiro momento este corpo pode aparecer semi-nu e depois este corpo pode ser flagelado à exaustão, como foi no caso de Da manjedoura à cruz. O corpo de Jesus neste período é bem o corpo do sacrifício, o corpo do cordeiro que pode ser sacrificado para retirar os pecados do mundo. A violência aplicada ao extremo sobre o seu corpo só veria real concorrência num período bastante posterior, com The passion, de Mel Gibson, 2004.

IHU On-Line - Em que sentido essas produções influenciaram os filmes que foram feitos posteriormente sobre a vida de Cristo?

Luiz Antônio Vadico - Há um fenômeno bastante interessante que ocorre nos filmes de Cristo. Como a história é conhecida e é basicamente a mesma, em geral os produtores e ou diretores conhecem as produções realizadas até o momento em que decidem fazer as suas próprias. Isso faz com que haja um diálogo entre estes diversos filmes, onde ou ocorrem referências ou a experiência dos antecessores é aproveitada. Este é um dado importante, onde algum filme tenha cometido alguma “gafe” e tenha sido criticado pela sociedade, o filme posterior se esforçará em não cometer o mesmo erro.

Como comentamos anteriormente, a Paixão da Pathé teve influência direta na Paixão da Gaumont, sobretudo por que ambas eram empresas concorrentes. Quando Alice Guy realiza o seu filme ela tem a estrita missão de “opor” uma paixão àquela realizada pelo rival. Esta luta pelo mercado consumidor possibilitou o surgimento de duas ótimas produções que possuem estéticas bastante diversas e que coexistem no mesmo período de tempo, na primeira década do século XX. O sucesso dos três filmes, que continham a “Cristologia” do “Servo Sofredor” em si, e a completa ausência de críticas sérias ao seu conteúdo, acabou animando outros produtores a adotarem e manterem o mesmo formato e conteúdo ao longo dos anos, coisa que somente foi de fato rompida após a Segunda Guerra Mundial, na década de 1950, com as novas produções que serão realizadas para a TV, como O Cristo vivo, da produtora americana Cathedral, e Os mistérios do Rosário produção hispano-americana, realizada sob os auspícios da organização O Rosário em família, do conhecido Pe. Patrick Peyton.

IHU On-Line - Que valores cristãos e humanos se sobressaem nessas produções?

Luiz Antônio Vadico - Nestas três produções especificamente, não há preocupação com “valores humanos”, pois ao menos nas duas primeiras, não há grande possibilidade de informação dramática, pois nem se usavam intertítulos ainda. Tanto na Paixão da Pathé quanto na da Gaumont, o esforço recai sobre a questão Cristológica, se está contando a estória da “redenção”, como o Filho de Deus encarnou na Terra para ser sacrificado para redimir a humanidade dos seus pecados. A redenção da humanidade surge como o maior valor cristão ali contido. Toda e qualquer outra referência nos filmes se apagam diante desta. A caridade ou a fé não são temas teológicos abordados se não de maneira bastante indireta.

Além disso, os produtores, até onde temos notícias, não estavam de fato preocupados com a representação de “valores humanos” ou “cristãos”. Eles desejavam contar a Paixão de Jesus Cristo de uma forma extremamente atraente. Então, para os três casos, a estética foi um quesito mais importante do que os valores cristãos ou humanos, e esta foi bastante bem cuidada. Os três filmes tiveram versões coloridas. No caso dos dois mais antigos, foram coloridos à mão, fotograma por fotograma, e no caso de Da manjedoura à cruz, o processo foi químico, através da escolha de cores como azul, verde, sépia ou vermelho, eles realizavam a chamada “tintagem” e ou a “viragem”, que coloriam da mesma cor extensas áreas do filme. O azul era utilizado para informar ao espectador que a cenas se passavam à noite, por exemplo.

Em outras palavras, desde a escolha dos cenários, à tecnologia usada e ao processamento final da imagem, eles estavam interessados, sobretudo, em produzir algo que fosse Belo e atraente. Os valores humanos não estavam exatamente na ordem da boa qualidade de representação cinematográfica.

IHU On-Line - Que elementos das artes pictórica e gráfica migram para o cinema? E que significado essa estética adquire?

Luiz Antônio Vadico - Vários elementos migram da arte como um todo para o cinema. Formalmente, os princípios de composição dos objetos dentro do quadro; a perspectiva, longamente elaborada no contexto do Renascimento Cultural, é tratada com bastante cuidado na elaboração dos diversos planos de um filme, principalmente quando se trata de organizar o plano-dentro-do-plano; a utilização das cores, quer fosse como puro elemento estético, quer fosse por razões simbólicas, também migra das Artes pictóricas para o Cinema.

No entanto, a influência que se pode sentir de forma mais rápida e simples é a da escolha dos diretores pela utilização da obra deste ou daquele pintor como suporte estético para o seu filme. Isso implicará na escolha de um determinado estilo de iluminação, cores, composição e organização da cena. Isto pode ser visto claramente, no caso da Paixão da Pathé, em que a organização das cenas está mais próxima daquilo que era feito por Gustave Doré, no âmbito da ilustração bíblica do século XIX; ou como, no já citado caso de James Tissot, utilizado na Paixão da Gaumont no quesito estética e em Da manjedoura à cruz foi ainda utilizado com sentido narratológico.

Quando os cineastas recorrem à utilização de recursos, citações, ou até mesmo absorção da obra pictórica inteira de um determinado artista, estão sobretudo buscando encontrar no espectador a familiaridade necessária para uma boa recepção da sua obra. No quesito Paixão de Cristo, grandes mestres da pintura deram a sua contribuição ao longo da história. E o público em geral está bastante familiarizado com estas imagens que advém da arte sacra. Ver um filme que se parece com elas, de acordo com os diretores e alguns teóricos, permite que o espectador se sinta mais confortável diante daquilo que já é conhecido.

Beleza das imagens

A este raciocínio temos apenas a opor que se o produtor ou o diretor não forem bem-sucedidos neste processo, a familiaridade do espectador fará com que críticas se levantem imediatamente, relativamente à qualidade do filme rodado. George Stevens, em A maior história de todos os tempos, de 1965, foi um dos diretores que mais se preocupou com a beleza das imagens. Sua câmera ocupou-se, sobretudo, da composição e do enquadramento das paisagens. A crítica que acabou resultando por causa do seu excessivo uso, foi de que ele havia feito um filme baseado em “cartões postais”.

É interessante notar que esta “contaminação” que ocorre entre as artes faz com que se veja na tela do cinema, coisas que foram “normatizadas” em meados da Idade Média, como o Manto Azul e o Véu Branco da Virgem Maria. Em boa parte dos filmes, é com essas cores que ela vem representada. Em compensação as “contaminações” também se dão em sentido contrário. O manto de Jesus, que não havia sido vermelho até o surgimento do filme O manto sagrado, passou a exibir frequentemente essa cor desde então, seja na pintura, seja no próprio cinema.

IHU On-Line - Qual é o sentido de celebrarmos a Páscoa em nossa sociedade?

Luiz Antônio Vadico - Essas duas últimas questões são muito delicadas para serem respondidas por mim na condição de pesquisador, pois elas se referem a um contexto que, sobretudo, parece pedir um teólogo. No entanto, gostaria de respondê-las para além do âmbito acadêmico, apelando para minha própria subjetividade, se é que poderei ajudar de alguma forma nisso. A minha pergunta é se esta questão faz “sentido”. Para os cristãos, há completa pertinência em se comemorar a Páscoa, sempre houve, há e haverá. É no âmbito do Cristianismo que a celebração surge e enquanto houver Cristianismo fará sentido para o seu seguidor celebrar a Páscoa. Não consigo ver com espanto o fato de que nem todas as pessoas compreendem o sentido da Páscoa e, por isso, a comemoram de forma diferente, ou muitas vezes não lhe dão a menor importância. Se uma parte da sociedade, desligada – ou não – dos valores cristãos prefere coelho e chocolate na Páscoa, tudo bem, isso é com eles. Aqueles que preferem celebrar a Ressurreição de Jesus Cristo devem fazê-lo. O que acho difícil é que procuremos fazer um “Cristo de chocolate” que possa ser suficiente para todas as necessidades. Não, não pregaremos o coelho na cruz e nem faremos um Jesus de Chocolate.

Várias Páscoas

Acredito que Jesus ensinou claramente o caminho quando disse: “vós não sois do mundo”. Por isso, não fiquemos aborrecidos quando o “mundo” não compactuar conosco. Pensemos que atualmente existem várias Páscoas, cada uma com sua legitimidade, seja essa legitimação comercial, religiosa ou cultural, são sobretudo práticas do “mundo”; neste contexto, lembremos que o Cristão dedica-se à obra de Deus e à maior edificação do Espírito. Em essência ele não é do mundo, e sabe que Deus deve ser cultuado em “espírito e verdade”, e ele sabe, ao menos por lógica, que não tem como pedir ao “mundo” que legitime a sua prática.

Atualmente, ser cristão, tanto quanto no período tardio do Império Romano, passa necessariamente por uma escolha pessoal, por uma conversão ou até mesmo por uma reconversão; então, mais do que nunca, para aquele que se encontrou em Cristo, faz todo sentido comemorar e celebrar a Páscoa. “Porque se Jesus não ressuscitou é vã a sua fé”, mas se para nós ele ressuscitou, então celebremos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Antissemitismo e Filmes de Cristo

Hoje tivemos o prazer de ministrar uma palestra para os alunos calouros de Cinema da Universidade Anhembi Morumbi. O assunto: Antissemitismo nos Filmes de Cristo. Apesar de ser algo bastante palpitante e delicado, em nosso país parece carecer um pouco de interesse. Afinal, dizemos que vivemos num país multirracial, multirreligioso e sem preconceitos. Sim, vivemos, não tão colorido quanto queremos que seja, mas infinitamente menos "agressivo" que outros países. Não obstante, cabe a nós não deixarmos que as futuras gerações ampliem preconceitos e discriminações de qualquer espécie. Acho o assunto - antissemitismo - bastante interessante, mesmo que ele não me toque particularmente. No entanto, o povo judeu sofreu - e ainda sofre - perseguição sistemática por tantos séculos que não custa ficarmos mais alguns séculos estabelecendo barreiras para que o preconceito e a perseguição não retornem jamais.
O filme Golgotha, de Julien Duvivier, de 1936, é um destes raros exemplos onde o antissemitismo é pernicioso, presente e destilado com muita sutileza, tão grande sutileza que passa praticamente incólume à críticas na História do Cinema. Trabalho de um cineasta consagrado, um dos três grandes do realismo poético francês, ao lado de Marcel Carné e Jean Renoir, o filme, mais do que uma peça deliberada de antissemitismo é o registro de uma época onde este assunto era caro ao povo francês. Nas palavras do intelectual Michel Marie, para este que vos escreve: Até os judeus eram antrissemitas na França da década de trinta.
Infelizmente essa afirmação não encerra e nem pode encerrar o assunto. Ainda falta um bom artigo que deixe à mostra as vísceras desta última propaganda antissemita que anda solta por aí. Com o tempo o artigo nascerá. Até!

domingo, 29 de janeiro de 2012

Onde comprar o livro Filmes de Cristo. Oito aproximações.

Bem, como é sabido por todos da área acadêmica, às vezes temos dificuldades com a distribuição e venda dos nossos livros. Tendo em vista isso criei um blog especialmente dedicado ao livro Filmes de Cristo. Oito aproximações, através do qual informo mais sobre o livro, o publico ao qual se destina e também coloquei uma forma de comercialização, através do PagSeguro. Tem dado certo. O link é http://www.filmesdecristo.blogspot.com/ acessem, conheçam, divulguem. Estou a disposição para dúvidas e comentários. Abração