Este texto sucinto nasceu da pergunta de uma reporter da Revista Época, numa entrevista dada recentemente. Achei que ele poderia ser útil aqui também.
A imagem de Jesus sempre esteve vinculada naturalmente ao âmbito das instituições religiosas ao longo dos séculos. A reprodução de alguns episódios da sua estória se dava por encomenda da Igreja ou de alguns nobres; mesmo assim, até mesmo a representação visual que ele tinha e as personagens que o acompanhavam deviam obedecer algumas regras para serem representadas. P. ex. a Virgem Maria, manto azul e véu branco; cada santo ou mártir sempre levaria junto de si o símbolo escolhido pela Igreja; Santa Cecília traz uma bandeja com os olhos; Jesus vem acompanhado do cordeiro; São Pedro com as chaves do céu, etc.
Conforme ao longo dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, se multiplicavam as técnicas de reprodução de imagens, fossem como gravuras em livros, gravuras vendidas separadamente, santinhos, mais contato o grande público possuía com estes ícones. Muitas vezes elaborados ao extremo simbolicamente falando. Mas, sempre se mantendo ainda no âmbito do mundo religioso. As convenções ainda eram religiosas. Do final do século XIX e ao longo de todo o século XX isso irá se alterar sensivelmente. O motivo é o surgimento do cinema.
De um lado as instituições religiosas buscavam cumprir o seu papel de evangelizadoras e catequizadoras. Do outro, com o surgimento da indústria cinematográfica, as produtoras desejavam atingir o público que freqüentava as igrejas. Pois o cinema era muito mal visto em seu início. Mulheres e crianças não costumavam freqüentar o ambiente onde eram projetados filmes. É de olho nesse público, classe média, que pode pagar entradas mais caras, ou simplesmente engrossar a massa de espectadores, que o cinema vai aos poucos se apropriando da imagem de Cristo.
Ao longo dos séculos XX, o cinema conseguiu retirar a imagem de Cristo do controle puro e simples das instituições religiosas e torná-lo uma personagem do cinema. Esvaziado do controle religioso, e muitas vezes esvaziado do significado transcendental. Ele se transformou num personagem rico que pode ser trabalhado das mais diferentes formas pelos cineastas. As resistências sociais e religiosas à manipulação dessa imagem sempre existiram em menor ou maior grau. Mas, atualmente Jesus já é uma personagem de cinema.
A gravidade deste processo no Brasil pode ser percebida se levarmos em consideração que até a década de 60 e começo dos anos 70 havia uma grande população iletrada no país. A maior parte não lia os textos evangélicos. Mesmo os que lêem têm dificuldade de entender adequadamente o que lêem. Além disso, com exceção do Evangelho de Lucas, nenhum dos textos canônicos conta uma narrativa ordenada dos acontecimentos da vida de Jesus, o que dificulta perceber de fato qual é a sua estória.
Em outras palavras, gerações de brasileiros e pessoas em todo mundo aprenderam a estória da vida de Cristo através do cinema, ou mais tarde, através dos mesmos filmes transmitidos pela TV. A ordem dos acontecimentos, a importância que uns possuem em detrimento de outros, as escolhas de atores, frases evangélicas, textos, e cenários, tudo passou a ser ditado pela conveniência da produção cinematográfica.
Neste processo de tornar “Jesus um personagem do cinema” outras personagens que circundavam por sua estória precisaram ser valorizados. Outros foram deixados de lado e esquecidos. Exemplos disso, são a estória de João Batista,que passou a funcionar como uma sub trama dentro da estória de Jesus – pois ela possui os elementos: intriga, erotismo, violência e morte. Dessa forma a personagem de João Batista e também a de Salomé, que possuem um significado bastante limitado nos textos canônicos tiveram o seu papel e importância bastante ampliado e expandido. Da mesma maneira, para agradar um público apegado à tradição, o papel de Maria, que nos Evangelhos é muito pequeno, é ampliado e valorizado. Aí o típico Marianismo católico apareceu forte na maior parte dos filmes. Judas, o apóstolo que traiu Jesus, cujas motivações são pouco conhecidas, pois teria vendido Jesus por trinta moedas de prata, no entanto, ninguém sabe por que. Teve seu papel também ampliado, pois a ausência de uma motivação deu abertura para que se ficcionasse sobre suas razões. Com certeza o papel que mais foi ampliado e levou a alterações importantes relativas à imagem de Jesus, foi o de Maria Madalena.
Sobre Maria Madalena, só se sabe que ele expulsou delas sete demônios. Ela aparece depois nos episódios relativos à Paixão, como testemunha, e é a primeira pessoa para quem Jesus aparece após a Ressurreição. Isso é tudo o que se sabe sobre ela. Mas sua imagem já havia se fundido com de duas outras mulheres “anônimas” dos evangelhos, a mulher pega em flagrante adultério e a “mulher pecadora” que unge os pés de Cristo com perfume.
Por essa razão Madalena passa ao longo da estória da Igreja como “uma pecadora arrependida” uma pecadora se trata de uma mulher que levava má vida, provavelmente uma prostituta. As adaptações dos diversos filmes relativamente a Maria Madalena, já fizeram com que ela deixasse a condição de prostituta, se transformasse em seguidora de Jesus, esposa, e mãe de seus filhos. Bem, a ampliação do papel dessa personagem, no cinema, serve para dar alguma pitada de romance na estória. No entanto, isso foi feito ao longo de um século. As modificações mínimas de filme para filme, acabaram por afetar o conhecimento e o imaginário que o espectador possui sobre o assunto. Como disse antes a maior parte não lê os Evangelhos; se não liam antigamente, agora cada vez menos.
E Jesus? Jesus passa paulatinamente, de uma imagem que precisava ser retratada com o máximo de respeito possível. Pois afinal estava se retratando Deus, até dentrar na pele de um homem comum. Este Jesus despojado dos atributos divinos está sujeito a todos os problemas humanos, agravado pela sua confusa condição divina. Essa personagem passa a suportar toda espécie de manipulação. Desde o casamento com Maria Madalena e com mais duas mulheres, e ter com ela uma penca de filhos, até ser esquartejado vivo por Mel Gibson.
O cinema estabeleceu diversas imagens de Jesus Cristo. No Início do Cinema não narrativo e do cinema mudo, Jesus continuou bastante próximo da Cristologia Católica e protestante, ele ainda era retratado como “o cordeiro que retira os pecados do mundo”. Então ele nascia e crescia para o supremo sacrifício. Entregar sua vida para salva os homens. Em períodos posteriores, tendo em vista alguma modificações históricas como a primeira ea segunda guerras e o surgimetno da televisão. Jesus tem sua imagem sutilemnte transformada, ele aparece mais humano e com uma imagem mais próxima de nossa sociedade, ele vira: Jesus, o médico; Jesus: o Professor. Em duas séries televisivas dos anos 50. Em King of Kings de Nicholas Ray, de 1961, ele se transforma numa imagem de um Jesus “Americano”, cores americanas, pele, olhos, atitudes americanas. E ele tem vinculado a sua pessoa o tema da Liberdade, tão caro aos americanos. Em 1964, Jesus ganha uma feição mais política com O Evangelho Segundo Mateus, de Pasolini; em 1967, ele aparece como “o Pastor Universal” através de George Stevens, e a sua maior inovação é falar parte de uma epístola de Paulo; em A Maior Estória de Todos os Tempos.
Em 1973, Jesus aparecerá como um palhaço divertido em Godspell, uma produção que contava menos da sua vida do que tendia a fazer com que as pessoas se inspirassem nos gestos ali retratados; em Jesus Cristo Superstar, o mundo viu um “Jesus Adolescente” com todos os defeitos de um adolescente, cruel, mesquinho, preguiçoso, ranheta, egoísta, e irascível, mais ou menos um Anticristo. Mas, ele passou bem pela crítica por causa da qualidade das canções, a sua imagem questionava-se a si mesma, como ela fora elaborada anteriormente. Junto dele o papel de Judas cresceu bastante, ao longo do filme Judas parecia uma personagem mais próxima de ser O Messias, do que Jesus; e ao contrário de outros filmes, eles eram amigos bastante próximos. Para Judas Jesus havia acreditado na estória de que era Deus e havia sido amolecido por Madalena.
Em 1977 surgiu um dos melhores filmes, Jesus de Nazaré de Franco Zefirelli, feito para a TV, ele elaborou de forma bastante conscienciosa, tomando cuidado para não cair em erros passados a imagem de Jesus: o Judeu. Até hoje é considerada a melhor produção por todas as confissões religiosas.
A Última Tentação de Cristo, não obstante ser uma boa obra cinematográfica, no mostrou um Jesus Psicótico. Dependente de todos os que estavam à volta, sem opinião, covarde, indeciso, e quando tomou sua única decisão errou. O Papel de Judas chegou à sua maior elaboração: ele era mais íntegro e honesto, mais corajoso, e compreendia melhor a missão de Cristo do que ele mesmo. É com este Jesus, fraco, indeciso neurótico, que Maria Madalena, se casa; no filme ela se tornou prostituta por causa da rejeição de Jesus. Logo, só a aceitação dele pode fazer com que ela se redima.
O filme de Mel Gibson vai levar a um retorno à imagem tradicional, “Jesus o cordeiro de Deus”; no entanto, diversamente de vários diretores, Gibson, um católico ultra radical, conhece teologia e sabia bem o que estava fazendo ao estabelecer essa imagem.
No Brasil, o Padre Marcelo estabeleceu, a imagem de Jesus um homem cordial, alegre, amigos dos amigos. Bem brasileiro.
Quais as conseqüências disso? Bem, falar de Deus e falar sobre Deus, significa fazer teologia. Aqui não se discute a qualidade desta teologia. No entanto, essa teologia, a forma de ser ver Deus altera sensivelmente o imaginário das pessoas. Não foi à toa que Jesus saiu da condição de ícone intocado e sagrado da nossa cultura e chegou a se tornar uma personagem ligada ao mundo dos meios de comunicação como mais um produto.
O cinema lutou para tornar Jesus um personagem seu, procurou adaptá-lo da melhor forma para as suas necessidades e para o público que o recebia, no entanto, apesar de todas as boas intenções envolvidas em alguns casos, Jesus acabou se transformando num produto. Hoje as pessoas não possuem mais uma imagem unívoca de quem seja Jesus, elas podem escolher numa infinidade de informações, produtos midiatizados, que Jesus ela prefere. Um profeta? Um político? Um médico? Um psicótico? Um gentil? Todas essas imagens convivem, e nem ao menos se disputam espaço. É importante compreender a elaboração dessas imagens no âmbito da cultura e das relações do homem com o sagrado, pois quando dois assuntos entram “em moda” na mídia e são vendidos aos montes para as pessoas do mundo inteiro, só se pode entender este fenômeno de Judas e Madalena, Judas com o Evangelho, e Madalena, com o código da Vinci, se sabendo como ele foi preparado ao longo das décadas pelo cinema e pela TV.
As pessoas se acostumaram com a idéia de que Jesus poderia ter tido uma esposa, se acostumaram com a idéia de que Judas não era tão ruim assim e que tinha motivos sérios e sólidos para trair Jesus, etc, etc, isso faz com que a imagem sagrada que tanto importava para o público seja bastante esvaziada do seu sentido e significação originais. Mesmo seguir Jesus, não significa hoje um caminho único.
Em décadas anteriores os filmes de Cristo eram bastante reprisados no cinema e na televisão. Os brasileiros receberam fortemente a influência do cinema internacional na imagem que possuem de Jesus Cristo. No entanto, o efeito que essa adaptação de imagem teve foi o de fragmentar a sua força e dramaticidade. Uma outra forma de observar um dos seus possíveis efeitos é o fato de que o radicalismo cristão cresce, e cresce com afirmações de uma imagem única de Jesus, coesa, nada dispersiva, como é o caso das Igrejas Evangélicas e Carismáticas, Jesus é o curador. As frases usadas nos cultos são muito simples, repetitivas e pouco elaboradas. Por que toda elaboração dá margem à especulação e a possível fragmentação. Diante da multiplicidade atordoante do século XXI, aqueles que não se adaptam à fragmentação, à miséria, à fome, de toda sorte, agarram-se desesperadamente à imagem sólida de um Jesus, que além de Curador de todos os males é um provedor.
Saímos então da imagem de um Jesus, o cordeiro de Deus que veio ao Mundo para nos salvar, para a imagem de um Jesus que provém para nós o que precisamos para ficar no mundo. Ao longo de um século essa inversão foi bastante radical.
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