Contemplatio Dei: o Filme como Iconostase.
Resumo:
Na comunicação pretendo relacionar o surgimento da via crucis, como uma forma de meditação, os primeiros filmes de Cristo com seus quadros separados, a duração dos longos planos de vários filmes, a atuação contida dos atores que fazem Jesus Cristo, a fixação pela relação natureza x construção humana, a diferença na velocidade de cortes quando são tratados os personagens não sagrados e os personagens sagrados. O Tempo longo, da duração das seqüências e da estaticidade de algumas imagens, não apenas como reflexo do sagrado, mas como uma iconostase, que enquanto produção humana permite a transcendência do espectador levando a Contemplatio.
Buscando compreender a formação da narrativa nos Primeiros Filmes de Cristo (produzidos entre 1897 e 1905) esbarrei na questão do seu imbricamento com a arte religiosa e com a forma de utilização desta. Até então pensava a narratividade linear da vida de Jesus através dos seus aspectos didáticos, ou seja, um aprendizado visual sobre a sua vida; no entanto, estudando a arte sacra a partir do ponto de vista dos seus artífices, verifiquei que a finalidade poderia ser também uma outra, a contemplação.
Ao relacionar, em trabalho anteriormente apresentado, a oração do Rosário e o exercício da Via Crucis preocupava-me o estabelecimento de uma linearidade narrativa; no entanto, havia passado despercebido o aspecto funcional da meditação e da contemplação, através das imagens mentais e das imagens pictóricas que estão ali embutidos. Neste sentido, as imagens realizadas no Primeiro Cinema, relativas a Jesus Cristo, parecem estar mais ligadas à tradição da contemplação cristã do que ao plano da linearidade narrativa, sem que uma prescinda da outra necessariamente.
Essas observações se estenderam ao cinema como um todo, quando este se remete ao sagrado. Para o exercício da contemplação é fundamental que se pare diante da imagem sagrada, visualize, medite e contemple, de diversas formas podemos dizer que isso demanda tempo. Um tempo longo. Uma vez que as imagens da arte sacra são pinturas, logo estáticas. Para a contemplação o fator temporal é fundamental, observei nos primeiros filmes de Cristo os seus quadros separados, seu desenvolvimento e seu tempo; a duração dos longos planos de vários filmes posteriores que continham a mesma temática; a atuação gestual contida dos atores que fazem o papel de Jesus Cristo; a reincidente fixação de cineastas pela relação natureza x construção humana, aspecto observado até mesmo nos documentários religiosos; a diferença de velocidade nos cortes quando são tratados os personagens "não sagrados" e os "sagrados". Essa relação entre tempo de exposição da imagem vinculada ao sagrado, possibilita que se pense o filme, não apenas como simples reflexo da abordagem do sagrado, mas como uma iconostase, que enquanto produção humana permite a transcendência do espectador levando a Contemplatio.
Dentre os vários filmes que utilizarei para reflexão estão A Maior História de Todos os Tempos (Stevens, 1967), O Evangelho Segundo Mateus (Pasolini, 1964) e Koyaanisqatsi (Reggio, 1982). George Stevens mais particularmente, pois a sua abordagem da vida de Jesus, considerada uma das mais longas, foi muito criticada por ser lenta demais, foi chamada de coleção de "cartões postais", ao longo de minha tese de doutoramento havia demonstrado que o filme se organizava por "meditações", diante do exposto acima acredito que uma nova acepção de Contemplação, aplicável às imagens em movimento, pode ser mais adequado para compreender essa produção de Stevens, bem como a de outros cineastas quando tocam nas questões relativas ao sagrado.
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