segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Como mudou a Imagem de Jesus para os Brasileiros?

Este texto sucinto nasceu da pergunta de uma reporter da Revista Época, numa entrevista dada recentemente. Achei que ele poderia ser útil aqui também.

A imagem de Jesus sempre esteve vinculada naturalmente ao âmbito das instituições religiosas ao longo dos séculos. A reprodução de alguns episódios da sua estória se dava por encomenda da Igreja ou de alguns nobres; mesmo assim, até mesmo a representação visual que ele tinha e as personagens que o acompanhavam deviam obedecer algumas regras para serem representadas. P. ex. a Virgem Maria, manto azul e véu branco; cada santo ou mártir sempre levaria junto de si o símbolo escolhido pela Igreja; Santa Cecília traz uma bandeja com os olhos; Jesus vem acompanhado do cordeiro; São Pedro com as chaves do céu, etc.
Conforme ao longo dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, se multiplicavam as técnicas de reprodução de imagens, fossem como gravuras em livros, gravuras vendidas separadamente, santinhos, mais contato o grande público possuía com estes ícones. Muitas vezes elaborados ao extremo simbolicamente falando. Mas, sempre se mantendo ainda no âmbito do mundo religioso. As convenções ainda eram religiosas. Do final do século XIX e ao longo de todo o século XX isso irá se alterar sensivelmente. O motivo é o surgimento do cinema.
De um lado as instituições religiosas buscavam cumprir o seu papel de evangelizadoras e catequizadoras. Do outro, com o surgimento da indústria cinematográfica, as produtoras desejavam atingir o público que freqüentava as igrejas. Pois o cinema era muito mal visto em seu início. Mulheres e crianças não costumavam freqüentar o ambiente onde eram projetados filmes. É de olho nesse público, classe média, que pode pagar entradas mais caras, ou simplesmente engrossar a massa de espectadores, que o cinema vai aos poucos se apropriando da imagem de Cristo.
Ao longo dos séculos XX, o cinema conseguiu retirar a imagem de Cristo do controle puro e simples das instituições religiosas e torná-lo uma personagem do cinema. Esvaziado do controle religioso, e muitas vezes esvaziado do significado transcendental. Ele se transformou num personagem rico que pode ser trabalhado das mais diferentes formas pelos cineastas. As resistências sociais e religiosas à manipulação dessa imagem sempre existiram em menor ou maior grau. Mas, atualmente Jesus já é uma personagem de cinema.
A gravidade deste processo no Brasil pode ser percebida se levarmos em consideração que até a década de 60 e começo dos anos 70 havia uma grande população iletrada no país. A maior parte não lia os textos evangélicos. Mesmo os que lêem têm dificuldade de entender adequadamente o que lêem. Além disso, com exceção do Evangelho de Lucas, nenhum dos textos canônicos conta uma narrativa ordenada dos acontecimentos da vida de Jesus, o que dificulta perceber de fato qual é a sua estória.
Em outras palavras, gerações de brasileiros e pessoas em todo mundo aprenderam a estória da vida de Cristo através do cinema, ou mais tarde, através dos mesmos filmes transmitidos pela TV. A ordem dos acontecimentos, a importância que uns possuem em detrimento de outros, as escolhas de atores, frases evangélicas, textos, e cenários, tudo passou a ser ditado pela conveniência da produção cinematográfica.
Neste processo de tornar “Jesus um personagem do cinema” outras personagens que circundavam por sua estória precisaram ser valorizados. Outros foram deixados de lado e esquecidos. Exemplos disso, são a estória de João Batista,que passou a funcionar como uma sub trama dentro da estória de Jesus – pois ela possui os elementos: intriga, erotismo, violência e morte. Dessa forma a personagem de João Batista e também a de Salomé, que possuem um significado bastante limitado nos textos canônicos tiveram o seu papel e importância bastante ampliado e expandido. Da mesma maneira, para agradar um público apegado à tradição, o papel de Maria, que nos Evangelhos é muito pequeno, é ampliado e valorizado. Aí o típico Marianismo católico apareceu forte na maior parte dos filmes. Judas, o apóstolo que traiu Jesus, cujas motivações são pouco conhecidas, pois teria vendido Jesus por trinta moedas de prata, no entanto, ninguém sabe por que. Teve seu papel também ampliado, pois a ausência de uma motivação deu abertura para que se ficcionasse sobre suas razões. Com certeza o papel que mais foi ampliado e levou a alterações importantes relativas à imagem de Jesus, foi o de Maria Madalena.
Sobre Maria Madalena, só se sabe que ele expulsou delas sete demônios. Ela aparece depois nos episódios relativos à Paixão, como testemunha, e é a primeira pessoa para quem Jesus aparece após a Ressurreição. Isso é tudo o que se sabe sobre ela. Mas sua imagem já havia se fundido com de duas outras mulheres “anônimas” dos evangelhos, a mulher pega em flagrante adultério e a “mulher pecadora” que unge os pés de Cristo com perfume.
Por essa razão Madalena passa ao longo da estória da Igreja como “uma pecadora arrependida” uma pecadora se trata de uma mulher que levava má vida, provavelmente uma prostituta. As adaptações dos diversos filmes relativamente a Maria Madalena, já fizeram com que ela deixasse a condição de prostituta, se transformasse em seguidora de Jesus, esposa, e mãe de seus filhos. Bem, a ampliação do papel dessa personagem, no cinema, serve para dar alguma pitada de romance na estória. No entanto, isso foi feito ao longo de um século. As modificações mínimas de filme para filme, acabaram por afetar o conhecimento e o imaginário que o espectador possui sobre o assunto. Como disse antes a maior parte não lê os Evangelhos; se não liam antigamente, agora cada vez menos.
E Jesus? Jesus passa paulatinamente, de uma imagem que precisava ser retratada com o máximo de respeito possível. Pois afinal estava se retratando Deus, até dentrar na pele de um homem comum. Este Jesus despojado dos atributos divinos está sujeito a todos os problemas humanos, agravado pela sua confusa condição divina. Essa personagem passa a suportar toda espécie de manipulação. Desde o casamento com Maria Madalena e com mais duas mulheres, e ter com ela uma penca de filhos, até ser esquartejado vivo por Mel Gibson.
O cinema estabeleceu diversas imagens de Jesus Cristo. No Início do Cinema não narrativo e do cinema mudo, Jesus continuou bastante próximo da Cristologia Católica e protestante, ele ainda era retratado como “o cordeiro que retira os pecados do mundo”. Então ele nascia e crescia para o supremo sacrifício. Entregar sua vida para salva os homens. Em períodos posteriores, tendo em vista alguma modificações históricas como a primeira ea segunda guerras e o surgimetno da televisão. Jesus tem sua imagem sutilemnte transformada, ele aparece mais humano e com uma imagem mais próxima de nossa sociedade, ele vira: Jesus, o médico; Jesus: o Professor. Em duas séries televisivas dos anos 50. Em King of Kings de Nicholas Ray, de 1961, ele se transforma numa imagem de um Jesus “Americano”, cores americanas, pele, olhos, atitudes americanas. E ele tem vinculado a sua pessoa o tema da Liberdade, tão caro aos americanos. Em 1964, Jesus ganha uma feição mais política com O Evangelho Segundo Mateus, de Pasolini; em 1967, ele aparece como “o Pastor Universal” através de George Stevens, e a sua maior inovação é falar parte de uma epístola de Paulo; em A Maior Estória de Todos os Tempos.
Em 1973, Jesus aparecerá como um palhaço divertido em Godspell, uma produção que contava menos da sua vida do que tendia a fazer com que as pessoas se inspirassem nos gestos ali retratados; em Jesus Cristo Superstar, o mundo viu um “Jesus Adolescente” com todos os defeitos de um adolescente, cruel, mesquinho, preguiçoso, ranheta, egoísta, e irascível, mais ou menos um Anticristo. Mas, ele passou bem pela crítica por causa da qualidade das canções, a sua imagem questionava-se a si mesma, como ela fora elaborada anteriormente. Junto dele o papel de Judas cresceu bastante, ao longo do filme Judas parecia uma personagem mais próxima de ser O Messias, do que Jesus; e ao contrário de outros filmes, eles eram amigos bastante próximos. Para Judas Jesus havia acreditado na estória de que era Deus e havia sido amolecido por Madalena.
Em 1977 surgiu um dos melhores filmes, Jesus de Nazaré de Franco Zefirelli, feito para a TV, ele elaborou de forma bastante conscienciosa, tomando cuidado para não cair em erros passados a imagem de Jesus: o Judeu. Até hoje é considerada a melhor produção por todas as confissões religiosas.
A Última Tentação de Cristo, não obstante ser uma boa obra cinematográfica, no mostrou um Jesus Psicótico. Dependente de todos os que estavam à volta, sem opinião, covarde, indeciso, e quando tomou sua única decisão errou. O Papel de Judas chegou à sua maior elaboração: ele era mais íntegro e honesto, mais corajoso, e compreendia melhor a missão de Cristo do que ele mesmo. É com este Jesus, fraco, indeciso neurótico, que Maria Madalena, se casa; no filme ela se tornou prostituta por causa da rejeição de Jesus. Logo, só a aceitação dele pode fazer com que ela se redima.
O filme de Mel Gibson vai levar a um retorno à imagem tradicional, “Jesus o cordeiro de Deus”; no entanto, diversamente de vários diretores, Gibson, um católico ultra radical, conhece teologia e sabia bem o que estava fazendo ao estabelecer essa imagem.
No Brasil, o Padre Marcelo estabeleceu, a imagem de Jesus um homem cordial, alegre, amigos dos amigos. Bem brasileiro.
Quais as conseqüências disso? Bem, falar de Deus e falar sobre Deus, significa fazer teologia. Aqui não se discute a qualidade desta teologia. No entanto, essa teologia, a forma de ser ver Deus altera sensivelmente o imaginário das pessoas. Não foi à toa que Jesus saiu da condição de ícone intocado e sagrado da nossa cultura e chegou a se tornar uma personagem ligada ao mundo dos meios de comunicação como mais um produto.
O cinema lutou para tornar Jesus um personagem seu, procurou adaptá-lo da melhor forma para as suas necessidades e para o público que o recebia, no entanto, apesar de todas as boas intenções envolvidas em alguns casos, Jesus acabou se transformando num produto. Hoje as pessoas não possuem mais uma imagem unívoca de quem seja Jesus, elas podem escolher numa infinidade de informações, produtos midiatizados, que Jesus ela prefere. Um profeta? Um político? Um médico? Um psicótico? Um gentil? Todas essas imagens convivem, e nem ao menos se disputam espaço. É importante compreender a elaboração dessas imagens no âmbito da cultura e das relações do homem com o sagrado, pois quando dois assuntos entram “em moda” na mídia e são vendidos aos montes para as pessoas do mundo inteiro, só se pode entender este fenômeno de Judas e Madalena, Judas com o Evangelho, e Madalena, com o código da Vinci, se sabendo como ele foi preparado ao longo das décadas pelo cinema e pela TV.
As pessoas se acostumaram com a idéia de que Jesus poderia ter tido uma esposa, se acostumaram com a idéia de que Judas não era tão ruim assim e que tinha motivos sérios e sólidos para trair Jesus, etc, etc, isso faz com que a imagem sagrada que tanto importava para o público seja bastante esvaziada do seu sentido e significação originais. Mesmo seguir Jesus, não significa hoje um caminho único.
Em décadas anteriores os filmes de Cristo eram bastante reprisados no cinema e na televisão. Os brasileiros receberam fortemente a influência do cinema internacional na imagem que possuem de Jesus Cristo. No entanto, o efeito que essa adaptação de imagem teve foi o de fragmentar a sua força e dramaticidade. Uma outra forma de observar um dos seus possíveis efeitos é o fato de que o radicalismo cristão cresce, e cresce com afirmações de uma imagem única de Jesus, coesa, nada dispersiva, como é o caso das Igrejas Evangélicas e Carismáticas, Jesus é o curador. As frases usadas nos cultos são muito simples, repetitivas e pouco elaboradas. Por que toda elaboração dá margem à especulação e a possível fragmentação. Diante da multiplicidade atordoante do século XXI, aqueles que não se adaptam à fragmentação, à miséria, à fome, de toda sorte, agarram-se desesperadamente à imagem sólida de um Jesus, que além de Curador de todos os males é um provedor.
Saímos então da imagem de um Jesus, o cordeiro de Deus que veio ao Mundo para nos salvar, para a imagem de um Jesus que provém para nós o que precisamos para ficar no mundo. Ao longo de um século essa inversão foi bastante radical.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Introdução ao Estudo dos Filmes de Cristo

* Este artigo foi publicado pela primeira vez em Cadernos da Pós-Graduação do Instituto de Artes- Unicamp -versão resumida

Assistir um filme de Cristo na Semana Santa, no período da Páscoa Católica, foi um programa tão comum nos cinemas décadas atrás que todos nos sentimos, de alguma forma, íntimos do assunto. Apesar desta aparente familiaridade este sub-gênero possuí características específicas que necessitam ser levadas em consideração no momento de sua análise. A intenção neste artigo é ressaltar algumas dessas características, tendo como interlocutor William Telford (professor de Origens do Cristianismo e do Novo Testamento no Departamento de Estudos de Religião da University of Newcastle, Inglaterra) tendo em vista o seu artigo "Jesus Christ Star Movie".
Em seu sentido mais característico de ícone, Jesus Cristo é a imagem que domina a cultura ocidental e os filmes que cooperaram em sua elaboração são um importante documento histórico-social (Ferro 1992: 15) da relação do homem contemporâneo com o sagrado. Ainda assim, essa imagem parece guardar para o simples espectador a característica de ser insuspeita de manipulações ou de alterações no significado que ele espera encontrar.
Os Filmes de Cristo passaram a ser, para a grande maioria da população, uma fonte de informação sobre a vida e feitos deste homem, e (Babington e Evans 1993: 16) um eficiente meio de divulgação e popularização dos textos sagrados, quando não são, em última instância o único contato que o espectador contemporâneo tem com o assunto.
O Gênero - No começo da história do Cinema havia uma grande limitação dos gêneros cinematográficos, apenas dois deixavam-se entrever: a pornografia e os filmes bíblicos (Telford 1997: 116). Historicamente o gênero Bíblico evoluiu com altos e baixos e pode-se perceber quatro momentos distintos.
A década de 20 é considerada o período de ouro, pois instituiu o formato do gênero e legou-nos uma produção significativa. Nas décadas de 30 e 40 o terreno para o Épico Bíblico tornou-se árido e pouquíssimas produções datam deste período. Na década de 50 ele recobrou fôlego como um gênero que dava grandes lucros, prosseguiu assim até o início dos anos 60 e depois declinou.
Uma variedade de fatores foram levantados para tentar explicar a sua popularidade, especialmente nos anos 50, como: o mérito estético, o material do assunto religioso, a mentalidade piedosa da audiência americana, os chamarizes do sexo sublimado, violência e espetáculo, o clima imediato do pós-guerra, a luta contra o comunismo, o estabelecimento do Estado de Israel, etc.. Foram sugeridos também uma variedade de fatores para explicar a razão de seu declínio, como: audiências jovens, incremento do secularismo, a competição com a televisão, significativa queda nas bilheterias, escalada dos custos de produção, a liberalização da censura, etc.
William Telford crê que o rápido ressurgimento do gênero na década de 80 seja apenas os seus últimos estertores. Pensa que o herdeiro deste tema cinemático seja a Ficção Científica, pois ela é o ícone mais legítimo de uma sociedade que se seculariza cada vez mais.
No início do século passado as produções eram baratas e sempre acompanhadas por um lucro bastante razoável. Graças a isso, com o tempo se passou a investir cada vez mais e estes filmes acabaram se tornando as vedetes privilegiadas da estréia de inovações técnicas no cinema, como The Ten Commandments (1923) um dos primeiros a se utilizar da fotografia em Technicolor, ou posteriormente The Robe (1953) que encantou a todos com o uso do Cinemascope.
Não eram somente as inovações técnicas o seu atrativo, os atores mais populares eram convocados para estrelarem os papéis mais importantes. Dois diretores, e produtores, marcaram o formato do gênero, D. W Griffiths (Intolerance, 1916) e Cecil B. DeMille (The Ten Commandments, 1923; The King of Kings, 1927).
O Gênero Épico Bíblico pode ser dividido em três categorias: Épicos do Velho Testamento, Épicos Romano-cristãos e Filmes de Cristo.
Épicos do Velho Testamento - The Ten Commandments (Cecil B. DeMille, 1923/1956), Sanson and Delilah (Cecil B. DeMille, 1949), David and Bathsheba (Henry King, 1951), The Prodigal (Richard Thorpe, 1955),etc. Estes filmes têm pouca relevância para o estudo dos Filmes de Cristo, pois não lhe fazem nenhuma menção.
Épicos Romano-cristãos - Ben-Hur (Fred Niblo, 1925/ William Wyler, 1959), The Last Days of Pompeii (Merian C. Cooper, Ernest Schoedsack, 1935), Quo Vadis? (Mervin LeRoy, 1951), Salome (William Dieterle, 1953), The Big Fisherman (Frank Borzage, 1959), e Barabbas (Richard Fleisher, 1962), etc. Estes filmes normalmente ilustram o cristianismo primitivo e personagens que mantiveram estreita relação com Jesus Cristo. São interessantes por que à sua maneira também constróem uma imagem de Jesus.
Os Filmes de Cristo - A terceira categoria do gênero é a mais importante e também a mais prolífica, no que concerne a Hollywood, basta dizer que antes de Cecil B. DeMille ter produzido seu clássico The King of Kings, de 1927, já havia 39 filmes sobre a vida de Jesus Cristo. Por essa razão citarei apenas os mais conhecidos e significativos: From the Manger to the Cross (Sidney Olcott, 1912); The King of Kings (Cecil B. DeMille, 1927); Golgotha (Julien Duvivier, 1935); King of Kings (Nicholas Ray, 1961); The Gospel According to St Matthew (Pier Paolo Pasolini, 1964); The Greatest Story Ever Told (George Stevens, 1965); Jesus Christ, Superstar (Norman Jewison, 1973); Godspell (David Greene,1973); Jesus of Nazareth (Franco Zefirelli, 1977); Monty Python's Life of Brian (Terry Jones, 1979); The Last Temptation of Christ (Matin Scorsese, 1988); Jesus of Montreal (Denys Arcand, 1989).
Questões Próprias aos Filmes de Cristo - Vários caminhos podem ser trilhados para sua análise. William Telford sugere que se perceba: a forma do filme, as fontes, o contexto ideológico e social das produções, o estilo, e a caracterização de Jesus (a imagem física e emocional).
A Forma - Quanto a forma, dentre os doze citados anteriormente oito deles: From the Manger of the Cross, 1912; The King of Kings, 1927; Golgotha, 1935; King of Kings, 1961; The Gospel According to St. Matthew, 1964; The Greatest Story Ever Told, 1965; Jesus of Nazareth, 1977, e The Last Temptation of Christ, 1988; trataram a imagem de Cristo direta, séria e respeitosamente, com atenção aos aspectos históricos e sociais envolvidos.
Em busca da revitalização do tema na década de 70 surgiram: Jesus Christ, Superstar, 1973; Godspell, 1973; os dois são musicais e procuraram adaptar a história de Jesus às necessidades contemporâneas, quais sejam o período áureo da Contra-cultura. O último formato tentado foi o do filme Jesus of Montreal,1989, que trouxe para as telas referências das clássicas encenações da Paixão, este é ao mesmo tempo um formato novo e antigo, pois os primeiros filmes do século XIX e início do XX também obedeciam as encenações.
Outra forma é a da alegoria ou a dos filmes de Figura de Cristo. Estes costumam repetir em seu roteiro, de maneira alegórica, a vida de Cristo, como é o caso, p.ex., do filme E.T.-The Extra-Terrestrial, (1982, de Steven Spielberg), The Passing of the Third Floor Back (Berthold Biertel, 1935), Strange Cargo (John Ford, 1940), ou The Face (Ingmar Bergman, 1958), entre muitos outros. Este fenômeno é tão comum que P. Hurley, citado por Telford, chegou a identificar mais de 60 instâncias em que isto ocorre nos filmes. O filme de Figura de Cristo não está envolvido diretamente na construção da imagem de Jesus, mas sim na sua manipulação.
As Fontes - A primeira e mais conhecida fonte são os Evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João). Eles foram usados de diversas formas, o mais comum é que suas partes sejam selecionadas, harmonizadas e conflagradas. Pode acontecer também que seja utilizado apenas um deles, como foi o caso de The Gospel According to St Matthew (Pasolini, 1964). Os textos Apócrifos também são usados de forma direta ou indireta.
Os romances históricos também são uma fonte importante, mais comuns nos filmes Romano-cristãos. Também já se utilizou textos do historiador judeu Flávio Josefo, e, mais recentemente - a partir da década de 50 - vem se buscando auxílio da arqueologia para uma perfeita reconstituição histórica.
Contexto Social e Ideologia - O momento histórico-social da produção também influencia no formato e conteúdo. Existia, no século XX, uma imagem tradicional de Jesus bastante firmada, e não havia como contraditá-la em demasia sem provocar rejeição social ao filme. A cada novo Filme de Cristo os diretores e produtores enfrentavam críticas de três frentes: protestantes, católicos e judeus. Isto não significa que a imagem seja imutável, muito pelo contrário, pode-se ter uma apreciação considerável das transformações sociais numa determinada época tendo em vista o quanto esta imagem foi adaptável.
O Estilo - Em razão da longa e tradicional construção da imagem de Jesus Cristo, os diretores buscaram freqüentemente inspiração na arte para representar tanto Jesus quanto outros personagens. Cecil B. DeMille diz ter incorporado cerca de 270 pinturas religiosas no seu The King of Kings e outras 200 em The Ten Commandments (1956). Esta utilização não respeita nem mesmo ideologia, pois Pasolini também utilizou o mesmo recurso.
A música surge como outro elemento importante. Tem-se uma idéia de seu uso se pensarmos que DeMille inseriu sonorização em The King of Kings em 1931, e dando ênfase na utilização de hinos cristãos tradicionais em momentos climáticos e no restante colocou apenas efeitos sonoros. Lembremos que a produção da sociedade ocidental sobre Jesus Cristo não concerne tão somente à imagem, mas também à teologia, à música, à pintura, etc; todas essas referências fundem-se de forma complexa nos filmes.
Outro elemento estilístico é a escolha das locações. Os Filmes de Cristo já foram ambientados no Meio-Oeste Americano (Monument Valley), na Tunísia, na Palestina, no Marrocos, entre outras, sempre obedecendo o desejo dos diretores de dar uma ambientação visual o mais próxima possível da suposta paisagem na qual Jesus viveu.
A Caracterização - O primeiro problema é a escolha do ator. Ninguém imagina, p.ex., Arnold Schwarzenegger ou Danny De Vito no papel. O tipo físico e a "moral" do ator são quesitos levados em consideração. Não se costuma convocar um ator que tenha uma imagem negativa vinculada na imprensa (drogas, alcoolismo, jogatinas, etc).
DeMille foi um dos primeiros a entender a mística do papel. Conta-se que, durante a filmagem em 1927, ele não permitia que ninguém visse H. B. Warnner caracterizado de Jesus Cristo fora do set de filmagens. Ele obrigava-o a entrar diretamente no set, descendo do carro no último instante e nele entrando logo em seguida à sua participação. DeMille fez com que no momento em que Warnner estivesse caracterizado ele "fosse Jesus Cristo", dirimindo assim a pessoa do ator.
Um Segundo problema é quanto a conveniência de Jesus ser retratado como um homem de liderança. Esta questão tem significados diversos em momentos históricos distintos. Um exemplo disso seria a representação de Jesus como um homem de tendências pacifistas e com uma tradicional assexualidade na virada da década de 50 para a de 60, típico período da "má consciência e do anti-herói". O antídoto experimentado por Nicholas Ray em King of Kings (1961) foi valorizar os papéis coadjuvantes de Judas Iscariotes e Barrabás, pelo que foi muito criticado.
O terceiro problema é como representar eficazmente o duplo aspecto do Cristo, humano e divino, com certeza o filme que chegou mais próximo de alcançar algum êxito neste sentido foi The Last Temptation of Christ (1988), no entanto, ainda assim, pareceu um filme confuso para muitos espectadores.
O quarto problema já citado de forma implícita é a vigilância das instituições religiosas, que controlaram rigorosamente a representação da imagem de Jesus no cinema até a década de 60. No começo do século XX através de pressão, pouco depois estabeleceu-se o Código Hays e com o seu declínio nos anos 60, a pressão continuou existindo na figura da "Catholic Legion of Decency" nos Estados Unidos. Na Inglaterra o "Britsh Board of Film Censors" a partir de 1912, baniu toda e qualquer representação da imagem de Jesus Cristo no cinema, esta situação foi alterada apenas no período posterior à Segunda Guerra. Nestes anos todos, os censores britânicos fizeram exceção para a exibição de apenas dois filmes: The King of Kings (1927) e Ecce Homo (1935).
Produção Teológica - Qualquer discurso narrativo, musical, imagético, etc., sobre Deus, pressupõe necessariamente uma construção teológica à priori - e ou a posteriori, como resultado de uma fusão heterogênea de idéias (Marsh 1997: 22). Em alguns casos, como em The King of Kings (1927) e The Gospel According to St Matthew (1964) fez-se teologia explicitamente. Eles não possuem apenas idéias dispersas e confusas sobre o assunto, muito pelo contrário, constróem deliberadamente uma mensagem teológica.
Conclusão - Tendo em vista a proposta do artigo ser uma "Introdução" esta também só pode ser uma conclusão introdutória. Estudar a construção da Imagem de Jesus Cristo no cinema, ou nas diversas mídias, mais do que crítica historiográfica ou cinematográfica, exige uma qualidade hermenêutica do pesquisador. A Hermenêutica (Tilich 1985: 3) propõe a compreensão destes fenômenos religiosos, históricos e sociais. Diferentemente da pesquisa em geral do século XX, carregada de pressupostos ideológicos, e em alguns casos religiosos, o estudo da Imagem de Jesus Cristo só tem sentido se isso torná-la mais compreensível para todos os segmentos sociais envolvidos, sejam eles confissões religiosas, setores da academia ou a população em geral.
As diversas confissões religiosas tiveram suas razões para censurar a representação desta imagem, e não poucas razões, pois antes de qualquer coisa ela representa uma forma de se fazer teologia. Ela é um discurso religioso, mesmo quando o filme foi feito por um materialista. Não cabe aqui uma defesa da censura, muito pelo contrário. O que pude perceber assistindo e pensando nestes vários filmes é que as imagens (aglutinadas, escolhidas, selecionadas, etc) dão uma mensagem teológica, e, esta mensagem é muitas vezes sutilmente diferente daquela das confissões religiosas mais tradicionais. E, sutilmente não é pouco. Historicamente sabemos que muitas vidas se perderam em questões religiosas, onde uma sutileza foi o suficiente.
Analisar, criticar, historiar e, enfim, compreender como este fenômeno se deu, sem laivos doutrinários ou acadêmicos, buscando democratizar a discussão e os resultados parece-me uma boa forma de se iniciar esta questão.
Bibliografia Miníma
BABINGTON, B. & EVANS, P. W. Biblical Epics. Sacred Narrative in the
Hollywood Cinema. Manchester: Manchester University Press, 1993.
COUVARES, Francis G. Org. Movie Censorship and American Culture.
Washington, London: Smithsonian Institution Press, 1996.
FERRO, Marc. Cinema e História. S. Paulo: Paz e Terra, 1992.
MARSH, Clive & ORTIZ, Gaye. org. Explorations in Theology and Film.
Massachusetts, Blakwell Publishers Ltd., 1997.
TELFORD, William R. "Jesus Christ Movie Star: The Depiction of Jesus in the
Cinema" in: MARSH, Clive & ORTIZ, Gaye. org. Explorations in Theology
and Film. Massachusetts, Blakwell Publishers Ltd., 1997.
WALSH, Frank. Sin and Censorship - The Catholic Church and the Motion
Picture Industry. Yale University Press, New Haven & London, 1996.