terça-feira, 1 de junho de 2010

Lançamento do livro: Filmes de Cristo. Oito aproximações.

Depois de muito ensaio eis que iremos lançar um primeiro livro: Filmes de Cristo. Oito aproximações. O evento correrá no Rio de Janeiro no recinto da PUCRJ, casa que sempre nos recebeu tão bem, e onde contamos com amigos queridos como Miguel Pereira e Angeluccia Habert. O lançamento faz parte da programação da Compós, assim como outros livros da área de Comunicação do país.
O livro reúne oito artigos que apresentam o assunto Filmes de Cristo para os pesquisadores e público em geral. Cada um deles com uma abordagem distinta. Com certeza o carro chefe do livro é o artigo Cristologia Fílmica, onde propomos formas e métodos de análise da produção cinematográfica que elabora cristologia através de imagens.

Ainda não tenho imagem do livro, mas ficou bonitinho o danado. A Editora à Lápis caprichou bastante, espero que os amigos curtam, por dentro e por fora. Afinal, cultura acadêmica não dispensa um pouquinho de arte e estética, não é?!

Artigo O Campo do Filme Religioso, aceito no GT Fotografia, Cinema e Vídeo da Compós.

No artigo buscamos estabelecer o que é o filme religioso. Nós definimos e limitamos as características do Campo do filme religioso, tomando-o como um objeto de estudo acadêmico. No texto questionamos a relação direta que comumente os pesquisadores fazem entre filme religioso e gênero religioso; e nos propomos observá-lo como um campo, com características próprias, no qual diversos gêneros se encontram reunidos. Por fim, negamos a existência do gênero religioso, e substituímos essa idéia pela de Campo do Filme Religioso.

O assunto será apresentado no tradicional GT Fotografia, Cinema e vídeo, sob coordenação da profa. Dra. Bernadette Lyra. Será um momento muito oportuno para debatermos as idéias novas que contém o artigo, uma vez que ele também será o abre-alas do livro novo O Campo do Filme Religioso, que desejamos publicar ainda neste ano e quiçá no Encontro da Socine (Sociedade de Cinema e Audiovisual); é uma oportunidade excelente, pois a discussão com colega da área podem levar ao aclaramento e explicitamento de novos problemas e idéias. Enfim, o prazer da ciência.

Mesa “A Santificação e Seus Rituais Fílmicos” - XIV ENCONTRO ANUAL DA SOCINE (Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual) – que se realizará em Recife na UFPE – outubro/2010

No próximo Encontro Socine, novamente teremos o prazer de apresetarmos trabalho junto aos queridos Miguel Pereira e Angeluccia Habert. Nossa mesa da última Socine foi muito feliz, o público, as discussões e as profícuas trocas que se seguiram. Novamente o tema do Cinema, audiovisual e religião nos unirá. A mesa desta vez leva o nome de “A Santificação e Seus Rituais Fílmicos” e não é por acaso que o termo santificação vem aí colocado. Vejam abaixo os resumos dos textos.

Proponente: Miguel Serpa Pereira - Instituição de vínculo: PUC-Rio
Mini currículo: Professor e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUC-Rio. Doutor em Cinema pela USP. Diretor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio de 1978 a 1986 e de 1999 a 2003. Professor de disciplinas da área de cinema desde 1975, na PUC-Rio. Crítico de cinema do jornal O Globo de 1966 a 1983. Co-organizador do livro "Comunicação, Representação e Práticas Sociais" (2004), co-autor do livro "O Desafio do Cinema". Autor de inúmeros artigos em periódicos nacionais.

Título: A Santificação pelo Sangue do Inocente em "Abril despedaçado", de Walter Salles
Resumo: Tomando Abril despedaçado (2001), de Walter Salles, como objeto, pretendemos analisar nessa obra os elementos que constroem sua narrativa como um relato bíblico, em que o sangue do inocente redime e salva uma pequena sociedade num estado de quase decomposição moral. A construção dos afetos, a opressão familiar, a poética do dia-a-dia e o peso do mal que paira sobre o ambiente conduzem a inúmeras equivalências observáveis nas sociedades contemporâneas.

Resumo Expandido:
O deslocamento espacial para o Nordeste brasileiro, promovido por Walter Salles, ao adaptar para o cinema o livro de Ismail Kadaré, não retira o sentido da tragédia que está no original albanês. Embora usando de sua liberdade criativa para promover e ressaltar elementos da cultura bíblica ocidental, Walter Salles constrói um relato cinematográfico identificado por seu intenso humanismo em contraposição ao absurdo da vendeta, uma verdadeira tragédia, que está no livro de Kadaré. Assim, importa menos o processo de transição do texto literário para o filme e mais os elementos que, no filme, levam aos conceitos bíblicos e ao processo de santificação pela redenção.

No seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, André Comte-Sponville arrola dezoito títulos ou nomes que representam e definem o que poderia se chamar de um “homem virtuoso ou santo”. Não que todos esse atributos componham o “homem ideal”, como um tipo a ser modelado. No entanto, mesmo que isso não seja observável no conceito da vida cotidiana, o espaço da transcendência joga uma certa luz sobre essa contradição entre a busca da virtude e transgressão a esse bem que foge à contingência do existir.

Quando Susan Sontag fala da forma da obra como “arte reflexiva”, referindo-se ao cinema de Robert Bresson, entende esse lugar como o “prolongar ou retardar emoções” (SONTAG, 1987), entre tantos outros procedimentos de um estilo espiritual do cinema do cineasta francês. Já Paul Schrader define o sagrado presente em três cineastas de culturas diferentes, Ozu, Bresson e Dreyer, como o transcendente (SCHRADER, 2002).

Abril despedaçado (2001), de Walter Salles, compõe um quadro no qual o processo narrativo colhe elementos constitutivos não apenas da santificação mas do transcendente enquanto elemento do trágico em que se constituem personagens, situações e ambiente físico. É mais do que batido que a Bíblia narra histórias sangrentas. Na verdade, o sangue cristão é redentor dos males. Santifica, pelo exemplo e virtudes, o mundo que se torna símbolo sagrado. Assim, o mal, como a vingança, só é expiado no teatro da tragédia, com o sangue do inocente. O humano mais humano é a relação entre Tonho e Pacu. Mas, o imanente mais transcendente, é o sacrifício redentor. É o santo inocente.
Pretendemos analisar, no texto, como Walter Salles constrói essas relações entre opostos através de uma estética centrada em elementos simbólicos de um percurso de grande rigor estilístico e de uma intensa arte reflexiva.

Bibliografia:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1982
AGAMBEN, Giorgio. Profanações.São Paulo: Boitempo, 2007
COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1996
KADARÉ, Ismail. Abril Despedaçado. São Paulo: Companhia das Letras, 2001
SCHRADER, Paul. Il Trascendente nel Cinema. Roma: Donzelli, 2002
SONTAG, Susan. Contra a Interpretação. Porto Alegre: L&PM, 1987


Proponente: Luiz Vadico - Instituição de vínculo: UAM
Mini currículo: Prof. Dr. Luiz Vadico - Historiador e Escritor - graduado em História/IFCH - UNICAMP – Doutor em Multimeios/IA - UNICAMP. Prof. Titular do Mestrado em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi, SP. Participa dos Grupos de Pesquisa: Religião e Sagrado no Cinema e no Audiovisual; e Formas e Imagens na Comunicação Contemporânea. Pesquisa atual: Três Paixões: Pathè, Gaumont e Kalem (1902-1912). Um estudo comparado entre as três produções mais importantes sobre a Vida de Cristo no Primeiro Cinema.

Título: A Santificação do Filme: o produto e o evento.
Resumo: Na apresentação verificaremos o processo de santificação pelo qual o produto midiático religioso passa. Observamos isso através do comportamento dos produtores e atores (Cecil B. DeMille, Sidney Ollcott, Mel Gibson, George Stevens, etc) durante o processo de feitura do filme e do comportamento dos espectadores diante do seu visionamento. Observamos ainda o aspecto de uso social do produto midiático, e discutiremos o conceito de Arte Sagrada de Burkhardt em relação ao filme religioso.

Resumo Expandido:
Ao estudarmos o Campo do Filme Religioso chamou-nos atenção os vários aspectos que relacionavam algumas das suas produções com o processo de elaboração da Arte Sacra. Este tipo de arte, normalmente associado às igrejas e às manifestações religiosas em geral, conhecida pelas suas representações na pintura, escultura e música, não se traduzia num conceito eficiente para explicarem os comportamentos que encontramos ao longo da história dos filmes religiosos. Buscamos então, dialogar com um teórico pouco explorado e pouco convencional, Titus Burckhardt, filósofo e escritor suíço-alemão. Em seu livro, A Arte Sagrada no Oriente e no Ocidente - Princípios e métodos (1959), buscou estabelecer o conceito de Arte Sagrada, o qual discutimos no início deste trabalho.

Nem todos os filmes do Campo do Filme Religioso passam pelo processo de “sacralização” ou “santificação”, mas ele ocorre e reflete uma tradição comportamental bastante antiga. Este comportamento já havia sido observado durante a Idade Média, e em alguns outros momentos da história, os artistas ao realizarem o seu trabalho preocupavam-se em fazê-lo como um ato sacral (Burckhardt, 2004: 19), jejuavam, oravam, meditavam sobre os símbolos adequados a serem utilizados, em busca de uma inspiração que viesse de Deus para que a representação pudesse dignamente manifestar o sagrado e permitir com ele um contato. Os ícones bizantinos, gregos e russos são um bom exemplo deste tipo de produção (Gharib, 1997). Também os pintores do século XIX chamados de Pré-Rafaelitas buscaram este “estado especial” para realizarem suas obras (Argan, 1992: 103).

Na pesquisa, ao longo da história do cinema, observamos vários aspectos deste fenômeno, os gestos – e a intenção - de santificação em torno do produto midiático, visto como processo, produto, e uso. Analisamos um extenso conjunto de filmes, do qual destacamos “Da Manjedoura à Cruz” (Ollcott, 1912), “O Rei dos Reis” (DeMille, 1927), “Os Dez mandamentos” (DeMille, 1926/1956), “A Maior História de Todos os Tempos” (Stevens, 1965) e “A Paixão de Cristo” (Gibson, 2005). Primeiramente verificamos o desejo de criar um objeto “puro” através de um comportamento “puro” (produtores, diretores, atores, técnicos, etc) diretamente relacionado ao sagrado, vimos também as formas empregadas para tanto. Verificamos que a “santificação” se estendeu também ao local de exibição e notamos a transformação de um território profano, num espaço relativo às coisas do sagrado. E, bastante relacionado a este fato, mas não a ele atrelado necessariamente, o aspecto do evento, como uma forma de emprestar santidade ao produto midiático.

Expandindo essas primeiras conclusões, pudemos perceber o importante dado da temporalidade, como se estabeleceu uma estreita relação entre o produto midiático e o calendário litúrgico e para além disso, com a duração do tempo da projeção, onde se instaura uma temporalidade típica do sagrado. E, enfim, o último aspecto, mas que se encontra estreitamente relacionado a todos os outros, aquele que dá um fim social a este produto, o do seu uso para a benemerência, que observamos, tem mão dupla, qualifica e santifica o promotor do evento e qualifica sacralmente o uso que se faz do objeto midiático.

Não iremos especular sobre o estranho fato de que o filme, como um produto objetificável não se torna de forma alguma em algo santo. Ele não passa por um processo de fetichização coletiva. Mas, como vimos, o fato é que o produto midiático do Campo do Filme Religioso provoca comportamentos e usos semelhantes aos da Arte Sagrada.

Bibliografia:
BAUGH, L. 2000. Imaging the Divine. Jesus and Christ-figures in Film. Franklin, Sheed & Ward, 338 p.
BURCKHARDT, T. 2004. A Arte Sagrada no Oriente e no Ocidente. Princípios e métodos. São Paulo, Attar Editorial, 266 p.
TATUM, B. 1997. Jesus at the Movies. Guide to the First Hundred Years. Santa Rosa, Polebridge Press, 245 p.
VADICO, L. 2006. “Os Filmes de Cristo no Brasil. A Recepção como fator de influência estilística”, in: Galáxia. v. 6 n.11. São Paulo, PUC-SP – EDUC, pp. 87-103.

Proponente: Angeluccia Bernardes Habert - Instituição de vínculo: PUC/Rio
Mini currículo: Angeluccia Bernardes Habert é doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, Mestre em Ciências Sociais pela FFLCH/USP e é professora do programa de Mestrado em Comunicação Social da PUC-Rio. É autora de "A fotonovela e a Indústria Cultural" e "A Bahia de outr'ora, agora", pesquisas sobre cinema documentário e sobre cinema e religião.

Título: A questão moral e a experiência em dois filmes contemporâneos
Resumo: Investiga-se, a partir de A Serious Man (Um homem sério), 2010, de Joel e Ethan Coen e Einaym Pkuhot (Eyes Wide Open ), 2009, de Haim Tabakman, como a presença de um olhar de estranhamento desloca certezas e aflora desejos, duplamente, na ação diegética e na recepção. Discute-se a implicação paradoxal - que precipita uma outra forma de leitura que não a usual, transparente, muito de acordo com a técnica exegética “não leia sempre igual”, dos estudiosos do Talmud.

Resumo Expandido:
Investiga-se, a partir de A Serious Man (Um homem sério), 2010, de Joel e Ethan Coen e Einaym Pkuhot (Eyes Wide Open ), 2009, de Haim Tabakman, como a presença de um olhar de estranhamento desloca certezas e aflora desejos, duplamente, na ação diegética e na recepção. Ao reconhecer nesses filmes uma implicação paradoxal, que precipita uma outra forma de leitura que não a usual, transparente, muito de acordo com a técnica exegética “não leia sempre igual”, praticada pelos estudiosos do Talmud, o artigo discutirá santidade, interdição e liberdade. O uso da técnica que soletra ou vocaliza de forma diferente as palavras do texto não desconhece o sentido existente subjacente, mas proporciona novas e múltiplas interpretações.

O filme dos irmãos Coen inicia-se com uma frase do famoso rabino Rashi: “Receba com simplicidade tudo o que lhe acontece”. Segue-se uma cena fantasmástica, atemporal e decorrida em uma aldeia européia que pode ser lida com diferentes vocalizações e inquieta o espectador convencional, como uma peça que não se encaixa. Em seguida, ouve-se música moderna, enquanto um grande close mostra um auricular e um ouvido e situa a ação em uma escola hebraica, no centro dos Estados Unido, nos anos cinqüenta. Uma comédia cáustica, uma sátira cruel, lerão críticos e espectadores que acompanham o personagem, Larry, levado por um turbilhão de acontecimentos que não controla, aturdido e atarantado. Presente em sua perplexidade está o desejo de reconhecer a verdade última das coisas. Presente está a sua passividade estóica, que recebe os males sem revolta, até ao final, quando um tornado virá a seu encontro e ele nada perceberá. Um Job contemporâneo, pergunto?

A pedagogia moral das pequenas historias da tradição judaica transformou- se em instrumento de crítica e de acomodação à realidade banal e adversa, forte expressão de humor e ironia no mundo contemporâneo. Ilustração permanente da angústia do absurdo da condição humana, nunca deixou, ainda que distante do universo das aldeias e das comunidades religiosas, de ser expressão da dúvida e da pequenez humana frente ao grande.

O filme de Haim Tabkman se inscreve em outro registro estilístico, uma obra com olhar quase documental, com uma câmera de observação que espera e colhe com precisão os gestos e os detalhes do que encena. A poesia e o ritmo contido envolvem o registro deste cotidiano em uma beleza que extrapola o circunstancial.

Localizado em um bairro de judeus ortodoxos em Israel, o filme descreve um entorno de pessoas que experienciam, dia a dia, os preceitos religiosos e o estudo dos Livros Sagrados . Na cena inicial, a câmera espera para registrar, com paciência, uma ação corriqueira, que parece se prolongar no tempo, e prepara a expectativa de algo que acontecerá, sempre aos poucos, sem nenhuma preocupação com a velocidade. Preocupa-se em descrever o homem piedoso, um açougueiro religioso (kosher), que procura "amar as dificuldades" e “ser servo de Deus”. A santidade, do ponto de vista religioso, constitui-se nas boas obras, nos preceitos a serem obedecidos e no estudo dos Livros Sagrados. Mas a felicidade e o prazer que são prometidos ao homem bom parecem surgir na visita daquele jovem viajante e no desejo que ele lhe desperta.

O amor entre dois homens religiosos leva à discussão da interdição e do pecado. Em meio à paixão que aumenta, o homem mais velho negligencia o trabalho, a família, a comunidade religiosa e seus preceitos. Uma cadeia de transgressões e de omissões o leva enfim ao pecado maior. Novamente, defronta-se o espectador com uma historia que inquieta e não fecha. Se este é um filme que exorta a relação de amor entre dois homens como a felicidade prometida, a construção do filme - no ambiente de relações tão orgânicas e entrelaçadas - apresenta também uma discussão de responsabilidades rompidas e de omissões, que de forma alguma ultrapassará a beleza e o reconhecimento da libertação feita sobre o cotidiano insuficiente.

Bibliografia:
BUBER, Martin. Histórias do Rabi. São Paulo: Perspectiva, 1967.
CAILLOIS, Roger. O Homem e o Sagrado. Lisboa: Edições 70, 1988.
CERTEAU, MICHEL. Le Lieu de l’autre – Histoire religieuse et mystique. Paris: Gallimard/ Seuil, 2005
PUCHEU, Alberto. Nove abraços no inapreensível – filosofia e arte em Giorgio Agamben. São Paulo: Cultura Dinâmica, 2008.
SEDLMAYER, Sabrina, GUIMARÃES, César e OTTE, Georg (orgs.) O Comum e a experiência da linguagem. Belo Horizonte: Ed.UFMG, 2007.