segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Cinema e o Sagrado: Redenção - XIII Socine

O XIII Encontro Socine, realizado na ECA/USP em São Paulo, entre os dias 06 e 10 de outubro, organizado pela Socine – Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual foi muito proveitoso. Cabe sempre elogios à organização deste evento, reuniu de forma bastante efetiva os diversos profissionais da área. É um encontro que nos permite rever amigos e colegas pesquisadores e permite sempre arejar as idéias.
Tivemos oportunidade de participar da mesa: O Cinema e o Sagrado: Redenção; da qual fizeram parte a profa. Angeluccia Bernardes Habert, apresentando “Benzedeiras de Minas: sutileza na invenção e nos gestos”, e o prof. Miguel Serpa Pereira, fazendo a comunicação “A transgressão e o ritual salvífico no cinema de Robert Bresson”. A mim coube apresentar “ A Canção de Bernardette: A redenção e a carne”. Desde já deixo de público o agradecimento a estes queridos amigos, sem os quais não seria possível um debate tão oportuno. E, realmente debate foi o que não faltou após a apresentação. O que nos deixa muito felizes pois é prova do interesse que o tema desperta no público.
Aproveito a oportunidade para publicar abaixo o resumo expandido dos dois companheiros:
Proponente: Angeluccia Bernardes Habert
Título: Benzedeiras de Minas: sutileza na invenção e no gesto
Resumo:
Investiga-se a partir de Benzedeiras de Minas (26’, 2008), como o gesto e a invenção provocam imagens intensas no cinema dito documentário. O trabalho irá discutir a salvação, a construção da felicidade, o dom de cura no sentido das práticas terapêuticas serem o resultado de um movimento de troca e de construção simbólica, compartilhada e sustentada no cotidiana. Ao mesmo tempo, enfatizará a tendência contemporânea para um cinema mais poético.
Resumo Expandido:
Com sensibilidade e sutileza, Andrea Tonacci reconcilia, no filme Benzedeiras de Minas (26’, 2008), o olhar etnográfico com a poesia, ao registrar um tema quase que por encomenda. Há na sua trajetória cinematográfica notáveis experiências de linguagem e alguns outros trabalhos institucionais, o que ele denomina de filmes sugeridos por motivações internas e externas. Em todos, procura preservar a intenção de aprender e pesquisar, dando conta de outras formas de ordenações da relação do homem e do acontecimento com o mistério da vida, e sugere ao espectador uma maior liberdade de fruição , ou a oportunidade de construir o caminho para o próprio entendimento. Ao registrar o depoimento de três mulheres, as benzedeiras de Minas, em sua realidade viva e dinâmica, incorporadas à vida cotidiana, a inteligibilidade do que motiva as suas ações ( a fé, o dom, a sabedoria, ou a intuição) só se esclarecerá no âmbito da experiência do espectador. Partidário de uma política estética radical, Tonacci, com simplicidade e com a presença dos objetos da vida comum - para alguns, negaria o religioso e o transcendente- parece restaurar noções paulinas de corpo e de compartilhamento. Investiga-se, assim, a partir de Benzedeiras de Minas, um filme realizado através de um Edital da Secretaria do Ministério da Cultura e a Empresa Brasileira de Comunicação, como o gesto e a invenção provocam imagens intensas no cinema dito documentário. O trabalho irá discutir a salvação, a construção da felicidade, o dom de cura no sentido das práticas terapêuticas serem o resultado de um movimento de troca e de construção simbólica, compartilhada e sustentada no cotidiana. Ao mesmo tempo, enfatizará a tendência contemporânea para um cinema mais poético.
Bibliografia:
BERNARDET, Jean Claude. Cineastas e Imagens do povo. São Paulo: Cia das Letras, 2003. CAILLOIS, Roger. O Homem e o Sagrado Lisboa: Edições 70, 1988 ESCOREL, Eduardo. Advinhadores de água – pensando no cinema brasileiro. São Paulo: Cosac Naify, 2005. HAMBURGER, Michael. A verdade da poesia: tensões na poesia modernista desde Baudelaire. São Paulo: Cosac Naify, 2007. LINS, Consuelo. O documentário de Eduardo Coutinho – televisão, cinema e vídeo. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. SARTORA, Josefina; RIVAL, Silvina (org.). Imágenes de lo real – La representación de lo político en el documental argentino. Buenos Aires: Libraria, 2007.

Mini currículo:
Angeluccia Bernardes Habert é Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, Mestre em Ciências Sociais pela FFLCH/USP, e é professora do Programa de Mestrado em Comunicação Social da PUC-Rio. Diretora do Depto. Com.Social/PUC-RJ, coordena também a pós-graduação lato sensu sobre Comunicação e Imagem. É autora dos livros " A fotonovela e a Indústria Cultural" e " A Bahia de outr’ora, agora" , entre outras publicações, e pesquisa atualmente o cinema documentário.

Proponente: Miguel Serpa Pereira
Título: A transgressão e o ritual salvífico no cinema de Robert Bresson
Resumo:
Na nota breve sobre Bresson, no final da edição portuguesa das Notas sobre o Cinematógrafo, Carlos M. Couto S. C. diz o seguinte: “...e porque em Bresson o vento sopra onde quer, e as noites permanecem as quatro noites de um sonhador, a lógica do filme acaba por conduzir a uma auto-redenção, a uma intemporal ascese, axiomática da salvação”. É exatamente nesse contexto oxímoro que faço a minha reflexão sobre o último filme do realizador francês, O dinheiro.

Resumo Expandido:
O dinheiro, último longa-metragem realizado por Robert Bresson, tem uma singular progressão narrativa. É elaborado como se fosse um ritual litúrgico em que uma nota falsa de 500 francos torna-se o símbolo da conduta humana corroída pelo mal em contraposição do bem. Deleuze aponta essa presença do bem e do mal como inerentes ao jansenismo bressoniniano. Diz ele: “em L´argent o devoto Lucien só exerce a caridade em função do falso testemunho e do roubo que cometeu como condição, enquanto que Yvon só se lança no crime a partir da condição do outro. Dir-se-ia que o homem de bem começa necessariamente aí mesmo onde chega o homem do mal”. As trajetórias dos personagens de O dinheiro se cruzam de modo gratuito e ao acaso. É como se a mesma graça soprasse para o bem e para o mal. Ou por outra, o homem contém em si esses dois caminhos morais que não se excluem na ação humana cotidiana. Como diz ainda Deleuze, “ a resposta de Bresson é a mesma de Mefistófoles de Goethe: nós, diabos ou vampiros, somos livres para o primeiro ato, mas imediatamente escravos do segundo”. O texto vai tentar investigar como a moral capitalista, simbolizada numa nota falsa, torna-se a razão imediata, mas não última da vida contemporânea. Se os valores expressos nas ações humanas não se explicam apenas por culturas particulares, mas por desígnios sobrenaturais, Bresson encarna, em seus filmes, uma crença religiosa consistente e consagradora da vida.

Bibliografia:
AUMONT, Jacques. As Teorias dos Cineastas. São Paulo: Papirus, 2004 BAZIN, André. O Cinema, Ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1991 BRESSON, Robert. Notas sobre o Cinematógrafo. Porto: Porto Editora, 2000 CAILLOIS, Roger. O Homem e o Sagrado. Lisboa: Edições 70, 1988. COHEN, Keith. Cinema e Narrativa. Torino: Eri, 1982 DELEUZE, Gilles. A Imagem-movimento. Cinema I. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004 OTTO, Rudolf. O Sagrado.Lisboa: Edições 70, 2005 SCHRADER, Paul. Il Trascendente nel Cinema: Ozu, Bresson Dreyer. Roma: Donzelli, 2002. SONTAG, Susan. Contra a Interpretação. Porto Alegre: LPM, 1987.
Mini currículo:
Professor e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUC-Rio. Doutor em Cinema pela USP. Diretor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio de 1978 a 1986 e de 1999 a 2003. Professor de disciplinas da área de cinema desde 1975, na PUC-Rio. Crítico de cinema do jornal O Globo de 1966 a 1983. Co-organizador do livro "Comunicação, Representação e Práticas Sociais" (2004), co-autor do livro "O Desafio do Cinema". Artigos em periódicos como Alceu, Cinemais, Contracampo